DÚVIDAS

Joaquim vs. Joaquina (fonologia)

Se Joaquim se escreve com M ao final, quando e por que se decidiu que seu feminino, Joaquina, seria com N (e não com M...) na última sílaba?

Muitíssimo obrigado e um grande abraço!

Resposta

Caro consulente, ocorre que, fonologicamente, o grafema m em Joaquim não representa propriamente o fonema /m/, mas sim o arquifonema nasal /N/, proposto, aliás, por Joaquim Mattoso Câmara Jr. Perceba-se que o m de amor e o de Joaquim não representam exatamente o mesmo som: o primeiro representa o fonema /m/ original; o segundo representa o arquifonema /N/ que, foneticamente, se manifesta anasalando a vogal anterior: [ʒoakĩ].

Antes de explicar o que ocorre com o antropônimo Joaquina, convém conhecer o Princípio da Maximização do Ataque. Esse princípio garante que não pode haver uma sílaba terminada em consoante seguida de uma sílaba iniciada por vogal. Por exemplo, casa não pode ser dividido silabicamente como cas-a, porque – percebamos –, em cas-a, a primeira sílaba terminou em consoante /z/, e a seguinte começou com a vogal /a/. O correto é, pois, ca-sa, porque não viola o Princípio supracitado.

Consideremos, agora, o caso particular da flexão em Joaquina. Acontece que, devido ao Princípio da Maximização do Ataque, em duas sílabas consecutivas, não é permitido que a sílaba anterior termine em consoante e a seguinte comece em vogal. O nome Joaquim (/ʒoakiN/) termina no (arqui)fonema consonantal /N/; quando recebe o morfema -a, ganha uma nova sílaba, gerando, inicialmente, a forma Joaquim-a (/ʒoakiN-a/). Essa forma viola o Princípio da Maximização do Ataque, porque a penúltima sílaba terminou na consoante /N/, e a última começou com a vogal /a/. Para corrigir isso, a língua transforma o /N/ em um fonema /n/, que passa a ocupar a sílaba consequente: Joaqui-na (ʒoakina).

O uso de m e n, então, apenas deriva de regras ortográficas e de processos históricos da língua portuguesa. O arquifonema /N/ pode ser representado tanto pelo grafema m (como em Joaquim) quanto por n (como em pólen), porém o fonema /n/ só pode ser representado pelo grafema n. Isso justifica usar-se n (e não m) em Joaquina.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa