«Ao contrário do que se pode pensar» – oração subordinada conformativa - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Ao contrário do que se pode pensar»
– oração subordinada conformativa

No período «para fazer isso, ao contrário do que se pode pensar, é importante ter dúvidas», «ao contrário do que se pode pensar» é uma oração intercalada? Caso não o seja, como deve ser classificada?

Ainda sobre a mesma oração, à primeira vista interpretei «ao contrário» como locução adverbial e «do que se pode pensar» como oração subordinada substantiva completiva nominal. Ocorre que encontrei uma explicação que classificava «que se pode pensar» como oração subordinada adjetiva, considerando pronome demonstrativo o o (contido em de+o). Qual das interpretações é correta? Se a referida oração for subordinada substantiva completiva nominal, estaria ela subordinada à locução «ao contrário»? E se «que se pode pensar» for adjetiva, qual a função sintática de «ao contrário».

Agradeço por este e por tantos outros esclarecimentos com os quais fui presenteado por vocês!

Lucas Silva Estudante Brasil 171

A oração «ao contrário do que se pode pensar» pode ser considerada um tipo de oração subordinada conformativa1. Estas orações «envolvem epistemicamente o falante ou o ouvinte relativamente ao conteúdo da oração principal»e são tipicamente introduzidas pelos conectores como, conforme, segundo e consoante. Seguido a posição de Peres e Móia, poderemos considerar que estas são orações anticonformativas, na medida em que têm o mesmo comportamento das conformativas, mas exprimem um valor, não de conformidade, mas de disparidade3.

A construção «ao contrário do que se pode pensar» é composta por um conector, «ao contrário de», seguido de uma oração subordinada relativa, «o que se pode pensar»4.  

 

1. Para mais informações sobre as orações conformativas, cf. Lobo in Raposo et al., Gramática do português. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 2028 e ss.

2. Ibidem.

3. Cf. Áreas Críticas da Língua Portuguesa. Caminho, pp. 353-357.

4. Peres e Móia discutem ainda a possibilidade de constituintes como estas estruturas não serem oracionais, uma vez que, em muitas situações, o conector liga um sintagma nominal ou uma subordinada relativa a outro sintagma nominal, o que atribui ao conector características de uma preposição (cf. ibid., p. 355).

Carla Marques