A forma de tratamento “os senhores” + os CD e CI - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A forma de tratamento “os senhores” + os CD e CI

Sou um jovem professor espanhol e dou aulas de português em Espanha. Neste momento, estamos a trabalhar os CD e CI [complemento directo/direto e complemento indirecto/indireto]. Ao longo da aula surgiu uma dúvida que não consigo esclarecer a partir da consulta de diversas gramáticas.
Para a forma de tratamento formal "Os senhores" devemos usar o CD "o" ou CI "lhes" ou, pelo contrário, é mais aconselhável utilizarmos para CD e CI "vos" como costumo ler na imprensa portuguesa e ouvir nas notícias ou debates da televisão, onde o nível de língua deve ser cuidado?
A mesma questão se coloca com o possessivo, mas já pesquisei no próprio Ciberdúvidas e as vossas respostas não coincidem com aquilo que eu estudei na faculdade nem com o que ouço quando vou a Portugal.

Muito grato pelo esclarecimento.

Paco Peña Granada, Espanha 4K

Com a forma de tratamento os senhores, usam-se as formas de complemento directo ou indirecto na terceira pessoa, como se pode verificar em construções da linguagem corrente:

«Os senhores pretendem que os sirva de imediato?»
«Os senhores preferem que lhes sirva uma bebida?»

Com a forma vocês também se usa uma construção semelhante, mas é comum em Portugal a construção com vos (“Vocês querem que vos sirva o café?”), denotando esta uma maior proximidade com o interlocutor.

Também com os possessivos da segunda pessoa do plural (vosso, vossa, vossos, vossas) é comum não se fazer o alinhamento sintáctico/sintático, usando-os com vocês, formalmente uma terceira pessoa. Mas, porque na prática designa uma segunda pessoa, substituindo o pronome vós, que caiu em desuso, ela atraiu para si as formas pronominais da segunda pessoa do plural.

O lógico seria o alinhamento sintáctico dos pronomes com a forma verbal da respectiva pessoa. É assim que se faz no Brasil. É assim, também, que o Ciberdúvidas aconselha.

No entanto, na prática tal não acontece, nem a nível da oralidade nem da escrita. Podemos comprová-lo na própria literatura, como se observa nos excertos seguintes, de autores contemporâneos:

«Descuidaram assim a vossa função... a vossa missão?!!!» (Maria Alberta Menéres, À Beira do Lago dos Encantos);
«Tudo por vossa causa! Querem saber tudo! Andam sempre sôfregas por novidades!...» (Romeu Correia, O Tritão);

A questão das formas de tratamento não está ainda muito estudada em Portugal. No entanto, parece-me não se poder ignorar o peso de um uso bastante antigo e enraizado nos diversos níveis de realização linguística.

Maria João Matos