DÚVIDAS

A classe de palavras de qualquer

Na frase «não é um rei qualquer»,  qual a classe de palavras de qualquer?

Resposta

O Dicionário Terminológico classifica qualquer como quantificador [classe] universal [subclasse] – vide Aprendizagens Essenciais.

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, qualquer pode surgir com valor «DEPRECIATIVO pessoa ou coisa sem importância, de forma indeterminada, apresentando valor adjetival em posição pós-nominal e com artigo indefinido antes do substantivo», sugerindo-se insignificante como sinónimo:

(1) Não é um rei [qualquer].

(2) Não é um rei [insignificante].

(3) «Atendeu-me um fulano [qualquer].» (frase sugerida pelo dicionário suprarreferenciado), ou seja,

(4) Atendeu-me um fulano [insignificante/desconhecido (sem importância/sem qualificação)].

O Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, classifica qualquer como determinante [classe] indefinido [subclasse].

Peres (2013) refere o «valor de restrição» que o «operador qualquer» pode assumir quando ocorre «associado a uma estrutura nominal com função de predicativo (ligado ao verbo ser) e daí resultar a presença obrigatória do indefinido um (note-se que, no caso de (108c), o nome está obrigatoriamente elidido):

(108)     a. Ele é um funcionário qualquer.

                b. Ela não é uma escritora qualquer.

                c. Não era qualquer um que reagia com tanta calma.»

Móia (1992) salienta o facto de o «operador qualquer», em posição pós-nominal, ser «interpretado invariavelmente como um modificador de tipo adjectival», em que os «SN não predicativos» ocorrem em frases negativas, como é o caso da frase que a consulente nos trouxe, e em frases condicionais:

«(248) A Ana não dança com um rapaz qualquer.

(249) A Ana não se associaria a um principiante qualquer.

(250) Se a Ana dançasse com um rapaz qualquer, poderia ter problemas.

(251) Se a Ana se associasse a um principiante qualquer, iria à falência rapidamente.» (p. 44).

Na variante do português do Brasil (PB), Maria Helena de Moura Neves, na sua Gramática de Usos do Português (2.ª edição atualizada conforme o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa), na pág. 537, refere-se a qualquer como «pronome indefinido adjetivo»:

«c) o pronome QUALQUER, que, com substantivo precedido de artigo indefinido, usa-se indiferentemente anteposto ou posposto:

Se Sílvio imaginara diferente do que era, se se apaixonara, se lhe pusera sobre a cabeça uma QUALQUER auréola de martírio e destino, mesmo sabendo-a amante de Sérgio, fora porque o quisera, porque fizera questão de imaginá-la vítima de Sérgio.

Insisti para que fosse mais claro, isolasse um caso QUALQUER.»

No capítulo 3, a propósito do «emprego dos pronomes indefinidos», dedica três páginas (pp. 552-555) a qualquer e, quando surge em posição posposta, explica que «QUALQUER pode passar a atribuir certa ideia qualificativa depreciativa ao substantivo, significando "sem qualificação", "sem valor", "reles". Esse significado é uma decorrência natural da noção de escolha não empreendida, que está na base do indefinido QUALQUER. Nesse emprego, se o substantivo está no singular, ele vem precedido do artigo indefinido um:

Não se demite quem foi nomeado por pressão de um político QUALQUER.

E não um teatro QUALQUER: tem de ser aquele teatro.

E não eram pessoas QUAISQUER, não.» (p. 555).

Evanildo Bechara, na sua Moderna Gramática Portuguesa (39.ª edição) também se refere a qualquer como «pronome indefinido adjetivo» (p. 185).

Desta forma, pode concluir-se que, na nomenclatura do português europeu (PE), e seguindo o Dicionário Terminológico, documento de consulta, com a função reguladora de termos e conceitos sobre o conhecimento explícito da língua, qualquer é um quantificador universal; no português do Brasil (PB), classifica-se como um pronome indefinido. 

Móia, Telmo (1992). Aspectos da Semântica do Operador Qualquer (p. 44). Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. (Col. Cadernos de Semântica, n.º 5).

Peres, João Andrade (2013). Semântica do Sintagma Nominal. In Raposo, Eduardo Buzaglo Paiva; Nascimento, Maria Fernanda Bacelar do; Mota, Maria Antónia Coelho da; Segura, Luísa; Mendes, Amália. Gramática do Português (Volume I, Capítulo 21, pp. 796-800). Fundação Calouste Gulbenkian.

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