José Mário Costa - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
José Mário Costa
José Mário Costa
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Jornalista português, cofundador (com João Carreira Bom) e responsável editorial do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Autor do programa televisivo Cuidado com a Língua!, cuja primeira série se encontra recolhida em livro, em colaboração com a professora Maria Regina Rocha. Ver mais aqui.

 
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Um acento duplicado... numa pergunta de cultura geral

Descaso com a acentuação gráfica num concurso televisivo de apreciável audiência em Portugal.

Não há regras estabelecidas para a questão levantada pelo consulente, como se pode ver neste apanhado sobre os sinais gráficos ou, também chamados, de  pontuação.  No caso da barra [/] – e como respondemos no Ciberdúvidas  sobre "A barra (/) nas actas"  e sobre "Os usos da barra oblíqua e da barra invertida" –, esta  é uma questão de gosto (logo, de opção editorial), usando-se, também por isso, o hífen [-].

No caso do futebol, o uso mais generalizado é o emprego da barra oblíqua: Campeonato Nacional de 2019/20 – como se pode ver aqui e aqui, por exemplo.

Nada do que refere a consulente infirma o que se referiu na resposta em  causa: 1) A grafia das siglas com pontos ou sem pontos não  tem qualquer  regulamentação: nem nas gramáticas, mais antigas ou mais recentes, nem em qualquer vocabulário ortográfico. 2) Foi o uso generalizado – seguido  em todos os dicionários, prontuários, manuais de  estilo, jornais, livros de todas áreas e até nas gramáticas mais reputadas (v.g., a  Nova Gramática do Português Contemporâneo, de  Celso Cunha e   Lindley Cintra, e   Moderna Gramática Portuguesa, de  Evanildo Bechara) – que consagrou a grafia das siglas sem pontos.

Houve tempos que as siglas figuravam com pontos? Sim, é verdade. Só que esse uso assentava, tão-só, como agora, em critérios editoriais, e não em qualquer regra estabelecida… que nunca houve. E, mesmo assim, a opção não era uniforme.

Basta consultarmos publicações da época e constatamos, por exemplo, ora E.U.A./U.S.A., ora EUA/USA; O.N.U. e ONU; O.T.A.N./N.A.T.O. e OTAN/NATO; U.R.S.S. e URSS. E até a polícia política do Estado Novo tanto aparecia grafada com pontos (P.I.D.E., depois D.G.S.) como sem eles (PIDE/DGS). E muitíssimos mais exemplos se podiam dar.

Na minha opinião, o uso dos últimos 40 anos resulta de uma opção bem mais criteriosa. Acaso tinha alguma lógica escrever-se com pontos acrónimos e siglas com sentido silábico, como A...

Como se referiu em anterior esclarecimento no Ciberdúvidas, as siglas não dispõem de  normas regulamentadas nas gramáticas, nem constam da nenhuma das  normas ortográficas a lingua  portuguesa  (de 1911, de 1945 e de 1990). Nem sequer constam no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa.

O que a prática consagrou e recomendam todos os prontuários e livros de estilo* é que se grafam sem pontos – ao contrário das abreviaturas. Um uso aplicável, também, quando, em vez da sua  designação por extenso, e  por opção de clareza,  se escreve só uma parte da sigla, como são os casos em apreço, correspondentes ao Sport Lisboa e Benfica,  Sporting Clube de Portugal e   Futebol Clube do Porto.

Portanto: SL Benfica (ou SLB), Sporting CP (ou SCP) e FC Porto (ou FCP).



*Cf. Siglas

Na literatura, foi criado o discurso indireto livre, para que se tenha a liberdade de misturar discurso direto e indireto sem necessidade de travessão ou aspas. Ora, a ausência destes sinais gráficos de pontuação é o sinal de que o autor está a usar o discurso indireto livre, para que o leitor esteja atento à distinção. Muitas vezes, porém, a liberdade é tal, que o leitor fica confundido. Temos exemplos típicos na literatura dos nossos dias, com autores que me dispenso de citar porque não sou crítico literário e todos os viandantes da escrita me merecem respeito.

No caso em apreço, deseja-se distinguir o discurso direto do indireto, dado que foi usado o travessão. Nestes casos, põe-se o problema de haver necessidade de se cumprirem as regras. Caso contrário, a confusão pode ainda ser maior.

Analisemos cada uma das frases em apreço:

A «– Nem desses plenários tive conhecimento. – Garanti. – Nada tenho a ver com isso.»

O primeiro travessão introduz o discurso direto na narrativa, o segundo passa à narrativa e o terceiro volta ao direto.

O que um dos meus mestres na língua me ensinou é que, se na escrita dum diário pode não haver grande preocupação com as interpretações erradas, normalmente esta preocupação é fundamental para que a mensagem seja exatamente a que desejamos transmitir.

Na pontuação usada na frase A, o que é que a personagem garantiu? O texto antecedente ou o sequente? Era o antecedente? Então seria preciso fazer a ligação:

«– Nem desses plenários tive conhecimento –, garanti. – Nada tenho a ver com isso.»

Mas é o sequente? Então, seria...