Fernando Pestana - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Fernando Pestana
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Fernando Pestana é um gramático e professor de Língua Portuguesa formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre em Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Atua há duas décadas no ensino de gramática voltado para concursos públicos e, atualmente, em um curso de formação para professores de Português.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

A frase «o objetivo da Fundação era de que as pessoas se juntassem» está correta?

Ou seria «... era o de que...» ou «... era que...»?

Obrigada.

Resposta:

Existem três possibilidades de construção, todas existentes no registro culto da língua portuguesa:

(1) O objetivo da Fundação era que as pessoas se juntassem.

(2) O objetivo da Fundação era de que as pessoas se juntassem.

(3) O objetivo da Fundação era o de que as pessoas se juntassem.

Eis a análise sintática* das orações de cada período:

(1) O objetivo da Fundação era: oração principal / que as pessoas se juntassem: oração subordinada substantiva predicativa

(2) O objetivo da Fundação era: oração principal / de que as pessoas se juntassem: oração subordinada substantiva predicativa

Esta frase resulta do cruzamento sintático entre duas construções: (I) O objetivo da Fundação era que as pessoas se juntassem; e (II) O objetivo de que as pessoas se juntassem era da Fundação. Assim, temos: «O objetivo da Fundação era de que as pessoas se juntassem.» Nela a preposição de é mero elemento reforçativo, expletivo, de sorte que a classificação da oração subordinada não se altera.

(3) O objetivo da Fundação era o (objetivo): oração principal / de que as pessoas se juntassem: oração subordinada substantiva completiva nominal.

Note que o o vem seguido de um substantivo implícito (o mesmo do sujeito da oração principal). Para evitar a repetição, tornando a linguagem mais concisa, o usuário da língua vale-se coesivamente da omissão desse termo. Ainda é importante dizer que o nome objetivo tem valor transitivo, isto é, exige um complemento nominal, por isso a oração «de que as pessoas se juntassem» é subordinada substantiva completiva nominal. Eis outros exemplos semelhantes: «Nossa certeza é a de que venceremos»; «Minha impressão é a de que o estado vai superar a tragédia rapidamente».

...

Pergunta:

No contexto abaixo, seria possível inferir que a conjunção e por si só está fazendo as vezes da preposição sobre ou equivalentes como «quanto a», «em relação a», etc. Ou seria apenas casos em que se omite a preposição?

«E sua mãe, para onde ela foi?» (Quanto a sua mãe, para onde ela foi?)

«E o dinheiro, o que faço para reavê-lo?» (Sobre o dinheiro, o que faço para reavê-lo?)

Agradeço desde já pela disponibilidade, compreensão e apoio de sempre!

Resposta:

Conjunção é uma classe gramatical que liga elementos de mesma natureza morfossintática; em geral, é um conector de termos e orações.

Nos exemplos trazidos pelo consulente, próprios da linguagem coloquial, se interpretarmos que o e continua sendo uma conjunção, precisaremos aventar a hipótese de que algo foi dito antes, de modo que o e passaria a conectar duas construções. Exemplo:

«Eu vi o seu pai ontem. E sua mãe, para onde ela foi?»

Logo, o e conecta dois períodos.

Agora, imaginemos que não há contexto algum, isto é, que duas pessoas se encontraram acidentalmente na rua, e uma delas pergunta introdutoriamente:

– E sua mãe, João, para onde ela foi? Nunca mais vi a dona Alice na vila.

Nesse caso, como o e não liga elementos, a classificação dada a ele terá de ser outra. Segundo a gramática tradicional brasileira*, esse uso do e se encaixaria melhor no grupo de «palavras denotativas de situação», as quais servem para abrir um discurso, na condição de marcador discursivo.

Sempre às ordens!

*Como o consulente é brasileiro, a explicação se baseou na nomenclatura e tradição gramatical do Brasil. A respeito das "palavras denotativas", sugerimos consulta extra no capítulo de Advérbio das gramáticas de Celso CunhaEvanildo Bechara e Domingos Paschoal Cegalla.

Pergunta:

É necessário usar os dois pontos depois de CPF ou RG em uma qualificação? E é necessário escrever antes dos algarismos em um endereço?

Eu acho que é desnecessário, mas tenho dúvida se estaria errado.

 

[N. E. – No Brasil, CPF e RG são siglas de «Cadastro de Pessoas Físicas» e «Registro geral», respetivamente.]

Resposta:

A respeito dessas dúvidas, não encontrei fonte oficial alguma a resolver tal imbróglio.

Porém, como toda norma é precedida dum uso frequente, o ideal seria observar o maior número possível de contratos ou modelos de contrato (em geral), para verificar se existe um padrão.

Pelo que percebo, é normal aparecer assim: «CPF (ou RG) n. XXX.XXX.XXX-XX» – ou «CPF (ou RG) sob o n.º XXX.XXX.XXX-XX» –, isto é, sem o uso de dois pontos. No entanto, em formulários, é comum haver esse sinal de pontuação. Exemplo:

Nome:
Endereço:
Telefone:
E-mail:
CPF:

Sobre o uso de abreviatura de número antes dos algarismos, o normal é a ausência – nunca vi [1]. Exemplo:

Rua XXXXX XX XXXXX, 358, XXXX...

1 N. E. – Em Portugal, usa-se sistematicamente a abreviatura n.º na escrita de endereços. Exemplo: Av. 24 de Julho, n.º XXX, XXXX-XXX Lisboa

Pergunta:

Na frase «Toneladas de acontecimentos estão cimentadas pela força do lirismo», o termo «de acontecimentos» é adjunto adnominal?

O termo «força» é complemento nominal ou agente da passiva?

Obrigado.

Resposta:

Segundo a nomenclatura da gramática tradicional brasileira, «de acontecimentos» é um adjunto adnominal, pois modifica o substantivo toneladas, que não exige nenhum complemento.

Em seu Dicionário de regimes de substantivos e adjetivos, Francisco Fernandes registra a possibilidade de o adjetivo cimentado exigir um complemento introduzido pela preposição por, de modo que está correta a interpretação de que «pela força do lirismo» funciona sintaticamente como complemento nominal.

No entanto, existe outra possível leitura: se se interpretar que está na voz passiva analítica a construção «estão cimentadas pela força do lirismo», o termo preposicionado poderia ser analisado como agente da passiva – apesar de o sentido não ser exatamente o mesmo, não há impedimento na transposição para a voz ativa: «A força do lirismo cimenta toneladas de acontecimentos.»

Não é incomum que um termo esteja sujeito à ambiguidade sintática.

Sempre às ordens!

 

Pergunta:

Estava estudando predicados e sugiram algumas dúvidas que pesquisando pela internet não consegui compreender. Pode me ajudar?

Como classifico um predicado de uma oração com sujeito indeterminado, oculto ou sem sujeito?

Nos dois primeiros casos, apenas observo se há VL [verbo de ligação] + PS [predicado do sujeito] para eliminar um PN [predicado nominal]?

Na oração sem sujeito, se não há sujeito, será sempre um predicado verbal? Meio confuso...

Desde já agradeço.

Resposta:

A classificação de um predicado* independe da (in)existência do sujeito e da natureza sintática do sujeito.

Dito isso, um predicado será "nominal" se for constituído por um verbo de ligação e um predicativo do sujeito; será "verbal" se constituído de um verbo intransitivo ou transitivo sem a presença de um predicativo (do sujeito ou do objeto); e será verbo-nominal se houver nele, além de um verbo intransitivo ou transitivo, um predicativo (do sujeito ou do objeto).

Observe os exemplos abaixo:

– Aquele professor ficou feliz com a aprovação do aluno. (predicado nominal)

– Havia dez pessoas na sala. (predicado verbal)

– Consideravam o apresentador um excelente profissional. (predicado verbo-nominal)

Sempre às ordens!

* Visto ser brasileira a consulente, adotou-se a nomenclatura da tradição gramatical brasileira, ainda vigente no ensino de língua no Brasil.