Fernando Pestana - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Fernando Pestana
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Fernando Pestana é um gramático e professor de Língua Portuguesa formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre em Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Atua há duas décadas no ensino de gramática voltado para concursos públicos e, atualmente, em um curso de formação para professores de Português.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Li, na Gramática de Napoleão M. Almeida, que o pronome se só pode indicar impessoalidade quando acompanha um verbo intransitivo, transitivo indireto, ou um transitivo direto cujo complemento é preposicionado (e.g.: Louva-se aos juízes).

Ele diz que, não preposicionando os objetos nos verbos trans. diretos, «elas [as palavras que têm essa função] forçosamente passariam a funcionar como sujeitos [i.e. a construção passaria a ser passiva]», e que construções como «Louva-se os juízes», onde o objeto não é preposicionado, seriam galicistas, por atribuírem ao pronome se a função reta.

Qual é o motivo do pronome se não poder indicar impessoalidade com os verbos transitivos diretos sem que o objeto destes seja preposicionado? E por que na construção «Passeia-se bem do Rio de Janeiro» o se não seria sujeito, ao passo que em «Louva-se os juízes» erroneamente se lhe atribuiria a função reta?

Obrigado.

Resposta:

Aquilo que o gramático Napoleão M. de Almeida chama de se impessoal é o que, tradicionalmente, passou a se chamar no Brasil de pronome se indeterminador do sujeito (ou partícula de indeterminação do sujeito, ou índice de indeterminação do sujeito)*.

Esse se, ligado a verbo na 3.ª pessoa do singular sem sujeito explícito na frase, tem o papel de indicar que o tipo de sujeito da oração é indeterminado.

Consoante o ensinamento da tradição gramatical brasileira, isso ocorre com:

1- Verbo de ligação («Lá, fica-se feliz quando há sol» / «Só se é feliz com saúde»);

2- Verbo intransitivo («Aqui se vive bem, mãe» / «Passeia-se bem no Rio de Janeiro»);

Obs.: Note que, no segundo exemplo (dado pelo consulente), o verbo passear é intransitivo, logo o se é uma partícula de indeterminação do sujeito, isto é, o sujeito da frase é indeterminado.

3- Verbo transitivo indireto («Confia-se em Deus nesta igreja» / «Precisa-se de ajuda»)

4- Verbo transitivo direto seguido de objeto direto preposicionado («Ainda não se bebeu do vinho» / «Louva-se aos juízes»).

Segundo a tradição gramatical, construções do tipo «verbo transitivo direto (3.ª p.) + se + sintagma nominal (com função se sujeito)» constituem a voz passiva sintética — exemplos: «Neste estádio de futebol, elogia-se o juiz» (Neste estádio de futebol, o juiz é elogiado); «Aqui se elogiam os juízes» (Aqui os j...

Pergunta:

Diz o prof. Napoleão M. de Almeida, no §402, B de sua Gramática Metódica, o seguinte:

«Os verbos pronominais essenciais muito se aproximam dos verbos intransitivos, uma vez que exprimem ação que não pode passar para um objeto.»

Ora, se ambos os tipos de verbos indicam que a ação fica restrita ao sujeito, que diferença há entre eles, além de um indicar isso mediante pronome oblíquo da mesma pessoa que o sujeito (e.g.: Eu me queixeiTu te arrependesteEle se orgulha), e o outro não indicar isso de modo algum (e.g.: Eu corriTu saísteO pássaro voou)?

Obrigado

Resposta:

A nomenclatura «verbo pronominal essencial»* diz respeito à natureza formal, morfológica do verbo. Já a nomenclatura «verbo intransitivo» diz respeito à natureza sintática do verbo.

Logo, um verbo pode ser pronominal e não ser intransitivo (Ela se queixou da rotina), pode ser intransitivo sem ser pronominal (Ele acordou cedo) e pode ser pronominal intransitivo (Tristemente o menino afogou-se).

Logo, nem sempre um verbo pronominal essencial será transitivo, podendo ser intransitivo, de modo a não exigir um complemento, como em «A árvore partiu-se», «O homem se levantou», «O fiel ajoelhou-se», «Enfim, o aluno se concentrou», todos pronominais intransitivos.

Sempre às ordens!

 

* Por ser brasileiro o consulente, usou-se na resposta a nomenclatura gramatical do Brasil.

Pergunta:

Nas orações a seguir, os termos aporte e instrumento ficam mesmo no singular? Qual a explicação?

1. As ideias da análise descritiva serão assumidas como aporte para a verificação aqui realizada.

2. Os passos descritos por Freitas (2015) serão instrumento para nossa análise.

Obrigada.

Resposta:

Quando se usa um substantivo com valor genérico ou de inteireza, sua forma no singular tende a dispensar o determinante artigo indefinido ou definido.

 No entanto, por razões estilísticas de ênfase ou clareza, as frases poderiam ser reescritas de forma equivalente a estas:

 1. As ideias da análise descritiva serão assumidas como um aporte (ou o aporte) para a verificação aqui realizada.

 2. Os passos descritos por Freitas (2015) serão um instrumento (ou o instrumento) para nossa análise.

 Sendo assim, as frases originais da consulente estão corretas. Sempre às ordens!

«O mesmo», uma jabuticaba só nossa
Um uso condenado no Brasil

«Parece que o estrago está feito. O estigma sobre [«o mesmo»] é tão grande e vem de todos os lados que o mesmo nem consegue mais se defender» – apontamento do gramático brasileiro Fernando Pestana sobre a censura normativa que no Brasil recai sobre o uso anafórico de «o mesmo»*, em frases como «antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo está parado neste andar». 

Texto publicado em 27 de novembro de 2024 no mural do gramático brasileiro Fernando Pestana no Facebook e aqui transcrito com a devida vénia.

N. E. – A jabuticaba ou jaboticaba é uma fruta característica do Brasil, e o seu nome é usado metaforicamente para referir alguma coisa que só existe ou acontece no referido país (cf. "Jabuticaba", Wikipédia).

 

Pergunta:

Lendo Os Maias, deparei-me com este uso da crase:

«Isolou-se então – sem fechar todavia a sua bolsa, donde saíam às cinquenta, às cem moedas...»

O contexto: o rapaz se isolou, mas continuou a fazer caridades.

O uso dessa crase em «às cinquenta» e «às cem» seria análogo àquele da expressão «às pressas», «às escondidas» ou «aos montes» (masc.), como um advérbio?

«Saíam moedas aos montes.»

Resposta:

A leitura do consulente está correta.

Vale dizer que o sujeito de «saíam» é «moedas». Pondo o trecho da frase na ordem direta, temos: «Isolou-se então – sem fechar todavia a sua bolsa, donde moedas saíam às cinquenta, às cem...».

Logo, a crase (preposição a + artigo as) em «às cinquenta (moedas)», «às cem (moedas)» é da mesma natureza estrutural da locução adverbial «aos montes», «aos borbotões» — também o sentido é razoavelmente semelhante ao dessas expressões.

Por regra, as locuções adverbiais de núcleo feminino iniciadas por a recebem acento grave, pelo que se justifica o acento empregado por Eça de Queirós.

Sempre às ordens!