Edite Prada - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Edite Prada
Edite Prada
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Edite Prada é consultora do Ciberdúvidas. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Português/Francês, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; mestrado interdisciplinar em Estudos Portugueses, defendido na Universidade Aberta de Lisboa. Autora de A Produção do Contraste no Português Europeu.

 
Textos publicados pela autora

Agradeço ao prezado e ilustre consulente a possibilidade de refletir de novo sobre uma estrutura que constitui um desafio e que, simultaneamente, não é de fácil, nem unívoca, interpretação.

Curiosamente, na análise que anteriormente fiz, não tive em conta a designação tradicional de conjugação perifrástica, que muitos estudiosos têm vindo a abandonar nos seus trabalhos, preferindo outro tipo de abordagens, falando de modalidade, de aspeto… Se considerarmos a frase que vem sendo objeto de análise, veremos que, efetivamente, aquela frase específica não encaixa nas definições prototípicas da conjugação perifrástica. E muito provavelmente é esta posição marginal, digamos assim, que permite a não- obediência às normas da concordância preconizadas para a conjugação perifrástica. Foi esse pressuposto que me levou a propor uma análise distinta, e que não pretende ser definitiva (não teria como…), nem indiscutível. É minha convicção de que a expressão «vir a ser», podendo embora, em outros contextos, ser interpretada como conjugação perifrástica típica com sentidos próximos de «chegar a ser, converter-se em, tornar-se», naquela frase não o é, aproximando-se, eventualmente, do sentido que refere em Aulete de «tratar-se de».

Assumindo que «vir a ser» na frase «O professor foi veementemente criticado por seu melhor amigo, que vem (venho) a ser eu mesmo» tem o sentido de «tratar-se de», ou, como propõe Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa (2001), p. 233, «quase o mesmo sentido do verbo principal empregado sozinho», dificilmente lhe encontraremos um valor prototipicamente perifrástico, que se materializa veiculando valores aspetuais temporais ou modais.

É esse facto, a meu ver, que possibilita a flutuação da concordância, que, parecendo-nos estranha, não deixamos de aceitar…

Curios...

Concordo com a apreciação que faz, embora tenha dúvidas acerca da função de eu, na frase em apreço e que repito como 1:

1. «O professor foi veementemente criticado por seu melhor amigo, que sou eu mesmo.»

Com efeito, o pronome relativo que, cujo antecedente é «seu melhor amigo», representa, do meu ponto de vista, um predicativo do sujeito que vem antes do verbo. A frase canónica seria «Eu sou o seu melhor amigo», que tem como equivalente «O seu melhor amigo sou eu».

Ao interpretarmos eu como sujeito, a concordância é inquestionável. Na segunda frase em apreço, que repito como 2, a situação é um pouco mais complexa.

2. «O professor foi veementemente criticado por seu melhor amigo, que vem [venho?] a ser eu mesmo.»

A frase integra uma expressão relativamente fixa («que vem a ser»), que, por isso mesmo, não é de fácil interpretação sintática, e qualquer análise feita sem a conveniente e profunda investigação pode soar a artificial. «Vir a ser», embora seja, efetivamente, uma unidade de sentido, não é um complexo (ou locução) verbal constituído por um auxiliar típico e por um verbo principal. Além disso, numa construção como 2, mais do que a concordância, é o próprio uso de «vir a ser» que parece estranho…

Podemos, ainda assim, tentar analisar a frase. Assumindo que não estamos perante um complexo verbal canónico, poderemos fazer a análise de cada um dos verbos e considerar que o relativo que, ou o seu referente «seu melhor amigo», é o sujeito do verbo vir, «vem», o que justificaria a terceira pessoa. Por seu lado ser teria como sujeito eu e como predicativo do sujeito o mesmo que (

Uma das características das línguas vivas prende-se com a capacidade que qualquer falante tem de produzir, e compreender, enunciados nunca antes ouvidos ou pronunciados. Tal facto implica que, por vezes, ocorram produções linguísticas que se não enquadrem com facilidade nas regras de organização sintática. Surgem, assim, aqui e ali, possibilidades diversas, e igualmente legítimas, de interpretação de algumas frases. Surge, também, a necessidade de articular a profundidade da análise com a competência metalinguística dos destinatários, sobretudo se se trata, como parece ser o caso, de alunos do ensino básico ou secundário…

No caso de «Rico, desdenhava dos humildes», uma das interpretações, eventualmente a mais fácil para um jovem, será a seguinte:

(i) «Rico, desdenhava dos humildes.»

Sujeito – nulo subentendido – «ele»;

     Modificador apositivo – «rico»;

Predicado – «desdenhava dos humildes»;

     Complemento oblíquo – «dos humildes».

A interpretação de «rico» como modificador apositivo justifica-se pelo facto de estar isolado por vírgula. Se o sujeito estivesse expresso, «rico» viria, igualmente, isolado por vírgulas:

«Ele/O Mário, rico, desdenhava dos humildes.»

Note-se que o modificador apositivo tem, frequentemente, uma interpretação causal, ou explicativa, o que é visível em análises com a de Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, 2002, p. 457, segundo a qual estruturas deste tipo são «apostos circunstanciais»:

(ii) «Paulinho, amigo, tirou-o da dificuldade.»

A possibilidade de interpretar «rico» como predicat...

A frase em apreço, de grande beleza, não é de fácil análise, até pelo valor avaliativo que veicula e que pode, de algum modo, condicionar a classificação, já por si difícil...

Importa dizer, antes de mais, que as orações comparativas não reúnem consenso entre os investigadores, havendo quem as aproxime quer das estruturas subordinadas em que, tradicionalmente, estão incluídas, quer das estruturas coordenadas.

Para a sua aproximação à coordenação, concorre uma das características que são mais comuns às comparativas e que, se assumirmos que é, de alguma forma, comparativa, a estrutura em apreço não cumpre: a impossibilidade de vir em início absoluto o elemento introduzido pelo conetor…

Gabriela Matos ilustra a proximidade entre coordenadas e comparativas na Gramática da Língua Portuguesa de Mira Mateus e outras, p. 746 (aqui, numerada como 1):

1.  «O Luís é mais inteligente do que o João é trabalhador.»

1.1.   *«Do que o João é trabalhador o Luís é mais inteligente.»

Note-se que, em 1, a construção contém um elemento correlativo quantificador (advérbio de quantidade na gramática tradicional…), mais, presente no primeiro elemento relacionado (do ponto de vista tradicional, a subordinante).

Ora, o exemplo que estamos a analisar e que numeramos como 2 parece ser uma variante deste e caracteriza-se por ter o quantificador adjacente ao conetor (chamemos-lhe assim, pelo menos por enquanto). Menos relevante é a presença ou não da preposição:

2. «Mais (do) que um simples participante, ele era um vencedor.»

Esta situação parece ser condição necessária para que...

Segundo o Dicionário Gramatical de Verbos Portugueses, o verbo brindar pode construir-se com complemento direto, se significa «presentear»: «O patrão brindou o funcionário mais eficiente.»

Nesta mesma aceção, pode, ainda, além do complemento direto, construir-se com um complemento oblíquo: «O filho brindou os pais com um presente.»

Em frases como a que está em apreço, o verbo constrói-se com um complemento oblíquo. O exemplo dado no dicionário citado é «Os sócios brindaram ao sucesso da empresa».

O facto de este complemento oblíquo ser introduzido pela preposição a pode induzir em erro e levar à interpretação desse complemento como indireto. Todavia, uma das características do complemento indireto é ser substituído pelo pronome oblíquo lhe, o que não é possível no exemplo em apreço: «Brindemos ao teu sucesso»; «*Brindemos-lhe.»

Perante o exposto, «ao teu sucesso» é um complemento oblíquo.

Armanda Ferreira