Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
1M

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Como Peso da Régua esteve no foco noticioso neste 10 de Junho, e por ter lido e ouvido o nome da cidade duriense ora com o artigo ora sem ele, quero esclarecer melhor a respeito de uma resposta no Ciberdúvidas, defendendo o uso do artigo, com o argumento da tradição.

Ora, a prevalecer esse critério, a verdade é que tanto o município local como a respetiva junta de freguesia denominam-se, oficialmente, Câmara Municipal de Peso da RéguaJunta de Freguesia de Peso da Régua e Godim.

Um segundo critério que se invoca sempre para a atribuição do artigo é o nome da localidade coincidir com um substantivo comum, tal como «(a) Figueira da Foz ou (o) Porto».

Como o nome Peso da Régua associa o termo peso («pesagem e pagamento de impostos das cargas que se destinavam ao cais da Régua») e régua («local de ajuntamento de cavalgaduras ou récuas junto ao cais fluvial»), está instalada a confusão...

Resposta:

Há de facto os critérios que a consulente menciona, mas que têm numerosas exceções – o que não quer dizer que reine a confusão.

O uso tradicional corrente – pelo menos, o consolidado nos últimos cem anos – e, portanto, correto é com artigo definido a preceder o elemento Peso: «o Peso da Régua» (cf. Guia de Portugal, Vol V, Fundação Calouste Gulbenkian, 1970, p. 587 e 589). Sobre Régua, que ocorre em lugar do topónimo completo, não há dúvidas, pois os registos exibem sistematicamente o artigo definido: «Peso da Régua» (ibidem).

Mas convém realçar um aspeto: o uso que figura na designação dos órgãos autárquicos pode não ser o tradicional. Com efeito, acontece que, com muitos topónimos tradicionalmente usados com artigo definido, se prefere omitir o artigo definido nas denominações oficiais, ao que parece com a intenção de sugerir formalidade1. Este critério pode contrariar o uso local corrente; e também se pode referir o caso de «o Porto», que mantém o artigo definido em expressões como «Câmara Municipal do Porto».

Acrescente-se que é duvidoso que Peso da Régua tenha a explicação atribuída pela consulente. O topónimo parece resultar da junção de dois topónimos prévios: Peso, nome de um monte (cf. José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa), cuja etimologia pode não ter que ver com a do nome comum peso; e Régua, que virá do latim regula, de regere («reger, governar»), subentendendo talvez barca, em referência à existência medieval de barcos mantidos pelo rei para a passagem do rio Douro (cf. A. Almeida Fernandes,

Pergunta:

Antes de mais, obrigado e felicitações pelo vosso inestimável trabalho.

"Porto Novo", a capital do Benim, escreve-se com hífen ou sem?

Na entrada respectiva da Infopédia aparece indiscriminadamente das duas formas. Outras consultas foram igualmente inconclusivas.

Muito obrigado.

Resposta:

Trata-se de um topónimo cuja configuração permite as duas grafias, com e sem hífen. Por outro lado, é um topónimo raramente utilizado, o que reforça alguma indefinição na sua ortografia.

Mesmo assim, a forma sem hífen – Porto Novo – é a recomendável pela razão de constar de duas fontes credíveis: o código de redação para uso do português na União Europeia; e o Vocabulário Onomástico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras.

Outros topónimos existem que têm o mesmo nome, escrito também sem hífen, conforme se regista no Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado.

Pergunta:

1) Qual a origem da palavra animação no sentido de «ato ou efeito de se ter ânimo como estado de espírito»?

2) Qual a origem da palavra animação no sentido de «desenho animado»? Ou as duas têm a mesma origem?

Muitíssimo obrigado e um grande abraço!

Resposta:

A palavra animação é analisável como um derivado sufixal do tema do verbo animaranima-.

Note-se, porém, que é um termo polissémico, porque, além de ocorrer nas aceções de «processo de dar vida», «vivacidade» ou «ação de alegrar», também se emprega, em sintonia com palavras de outras línguas que têm a mesma origem e configuração semelhante (palavras cognatas), em referência ao cinema de animação, na aceção de «técnica que permite dar a ilusão de movimento através de uma sequência de imagens constituídas por desenhos ou fotografias de bonecos» (dicionário da Academia das Ciências de Lisboa). Com efeito, com origem direta no latim animatio, animationis, contam-se não só o português animação as também formas animation, com diferentes pronúncias em francês, inglês  e alemão, animación, em espanhol, animazione, em italiano, e até, em russo, анимация (embora pareça mais corrente мультипликация).

Em inglês, o uso de animation, em referência a esta técnica cinematográfica documenta-se a partir de 1912 (cf. Online Etymology Dictionary), enquanto o termo correspondente em francês, animation, é mais tardio (ver Trésor de la Langue Française), muito embora neste idioma se ateste a utilização anterior de dessins animés, que se transpôs como «desenhos animados» para português.

Pergunta:

Tenho uma colega de trabalho que diz muito no começo de frases "Possa ser ele venha, possa ser que tenha...".

O certo é «possa ser» ou «pode ser»?

Resposta:

A forma corrente e indiscutivelmente correta é «pode ser que...».

Mesmo assim, convém assinalar o provável uso da expressão «possa ser» como regionalismo, pois há registo da sua ocorrência no estado da Bahia, conforme se anota em Gramática Online.

Pergunta:

Muito se lê «de pouco vale» (por exemplo: «De pouco vale esforçares-te tanto.).

A minha pergunta é: porque de? Não nos estamos a referir apenas a uma coisa ou ato que pouco vale, sem de? A pergunta é bizantina, mas desconheço a resposta.

Muito obrigado.

Resposta:

O uso em questão parece não ter tido descrição nem juízo normativo especial. Não há, portanto, comentário que leve a crer que estejamos na presença de um uso incorreto.

Mesmo assim, importa assinalar que as locuções «de nada» e «de pouco» se associam ao verbo servir, tal como outras introduzidas por de – «servir de exemplo/lição» (cf. dicionário da Academia das Ciências de Lisboa ) –, o que sugere que «de nada/pouco vale» ocorra por analogia.

Além disso, há registo da estrutura interrogativa «de que vale...?» (ver Dicionário Estrutural, Estilístico e Sintático da Língua Portuguesa, de Énio Ramalho), a qual permite legitimar respostas como «não vale de nada», «vale de pouco», ou, com inversão, como parece ter-se fixado ao modo de expressão idiomática, «de nada/pouco vale».

Há exemplos literários quer de «de nada vale» e «de nada/pouco serve», os quais não são propriamente recentes (Corpus do Português):

(1) «Ao ver-me, ela compôs-se um pouco, mas de nada valeu.» (Fialho d'Almeida, A Cidade do Vício, 1882)

(2) «Acusaram-nos das práticas mais infames e de nada valeram nem os seus protestos, nem as suas súplicas.» (Mário de Carvalho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, 1994)

(3) «Para esta de nada serve a apática prudência que pouco a pouco nos precepita nos laços cavilosos que nos tende o implacável inimigo de tôdas as nações [...]» (Marquesa de Alorna, Cartas e Outros...