Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
1M

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Um antigo estúdio de animação americano era chamado de Filmation (Associates)...

Daí, fazendo busca no Google, eu mesmo encontrei, em alguns dicionários, "filmação" (em português), "filmation" (em inglês) e "filmación" (em espanhol) [tudo isso com inicial minúscula...]!

A questão é: "filmação" já existe oficialmente como parte da língua portuguesa? E, caso sim, é um neologismo?

Por favor, muitíssimo obrigado e um grande abraço!

Resposta:

Em português, a palavra é possível, mas não a encontramos registada na maioria dos dicionários1 e, portanto, não parece de recomendar, até porque para designar o ato de filmar a língua já dispõe de filmagem.

Mas, em inglês, encontra-se o nome próprio Filmation, amálgama de film e animation e, como diz o consulente, denominação de uma empresa (1963-1989) que produzia quer filmes de imagem real, quer filmes de animação. Em espanhol, há registo de filmación (cf. dicionário da Real Academia Espanhola).

 

1 O dicionário de Caldas Aulete regista filmação, forma que, no entanto, prima pela ausência em todos os outros dicionários aqui consultados: Academia das Ciências de LisboaPriberam, Infopédia, Houaiss e Michaelis.

Pergunta:

Em uma frase nominal como "a duração do contrato de 2 anos", sabe-se, creio, que "do contrato", em relação com "duração", é um termo que exerce a função de adjunto adnominal.

Porém, hoje, peguei-me pensando que não sei qual é exatamente a função do termo composto que o procede, que é "de 2 anos", com relação a "do contrato" Isto é: relacionando-os, "do contrato" e "de 2 anos", poderemos dizer que este último é o adjunto adnominal do primeiro?

Neste caso, e em casos semelhantes, como fazer a análise?

Agradecida eu fico.

Resposta:

Tanto «do contrato» como «de dois anos» são complementos nominais.

Duração é nominalização do verbo durar, verbo que seleciona dois argumentos: um sintagma nominal coma função de sujeito («um contrato dura...») e um complemento não preposicionado de valor adverbial («um contrato dura dois anos»)1.

Sendo assim, pressupondo uma frase como «o contrato dura dois anos», a expressão nominal correspondente, com recurso ao substantivo duração, é «a duração de dois anos do contrato» (ordem que é preferível a «a duração do contrato de dois anos»).

Note que as expressões «de dois anos» e «do contrato» correspondem a complementos do verbo e, portanto, transpostos em associação com duração, são complementos nominais.

 

1 Ver "Os complementos dos verbos demorar e durar".

Pergunta:

Uma colega perguntou-me se conhecia a expressão «Pensas que sou da Lourinhã?», no sentido de «Pensas que sou estúpido?» ou «Pensas que sou parvo?». Desconhecia.

A mesma questão foi colocada por ela a vários outros colegas e a maioria conhecia a expressão.

Numa pesquisa breve na Internet encontrei uma explicação a que não sei se atribua crédito ou não e que radica a origem da mesma no desaparecimento, nos anos 30 do século passado, de um cão de grande porte de uma casa senhorial na Lourinhã, a que seguiram diversas mortes de ovelhas, coelhos e galinhas, falando-se mesmo em vitelos e até num burro, atribuídas ao cão. Havia quem lhe chamasse «a loba» ou «raposa». Deu-se caça ao animal e quando o mesmo foi abatido, constatou-se tratar-se «apenas de uma cadela». Ou seja, ter-se-á caído num logro. Alegadamente, a expressão terá advindo daí.

Podem, por favor, na medida do possível, confirmar a existência da expressão e a sua origem?

Obrigado.

Resposta:

A única informação aqui possível de obter é exatamente a mesma do consulente, ou seja, não se encontrou explicação cabal. Fica o registo.

Refira-se, mesmo assim, que é possível que haja ditos muitos parecidos com este agora em questão, que incluem topónimos com intuitos umas vezes jocosos outras deliberadamente ofensivos, a refletirem rivalidades regionais. É de lembrar que as relações entre os habitantes de localidades próximas, numa mesma região, podem ser do menos cordial que se possa imaginar. Muitas vezes a estratégia usada é a do insulto explícito ou velado, de tal maneira que, em português, como noutras línguas, se encontram ditos e provérbios muito pouco amigáveis – na verdade preconceituosos e difamatórios – sobre os habitantes de bairros, aldeias, vilas e cidades vizinhas.

Seguem-se dois exemplos, um provocador e outro particularmente acintoso:

«Mais vale uma rua do Porto que Gaia toda.» (na verdade, diz-se, usando a antiga partícula comparativa ca, intenção brejeira «ca Gaia toda»)

«Portimão, porta sim, porta não, para baixo é tudo de seguida.» (insinuando que grassa a prostituição feminina na cidade em causa – o que nunca terá sido o caso).

Acrescente-se também a conhecida pergunta «é de Braga?», que funciona como repreensão dirigida a quem deixa uma porta aberta e que se diz remontar à abertura de uma porta na muralha da cidade minhota, hoje conhecida como Arco da Porta Nova.

Pergunta:

Ultimamente tenho recebido muitas perguntas dos meus amigos que imigraram recentemente para Portugal e estão a tentar aprender a língua. De facto são muitas as dúvidas e poucas as fontes de informação.

Uma das questões mais confusas é o uso do artigo definido antes dos pronomes possessivos.

Por exemplo:

– Pedro, a Filipa é (tua/ a tua) irmã?

– Qual é (sua/ a sua) profissão?

Acho que as duas formas são aceitáveis, no entanto, sendo estas perguntas retiradas de um teste de português, acredito que haja “a resposta”.

Agradecia que me esclarecessem essa questão.

Resposta:

No português de Portugal, o possessivo é geralmente acompanhado de artigo definido:

(1) Já falei com o teu professor.

Depois do verbo ser, também se verifica este uso:

(2) Este senhor é o meu professor.

Em (2), diz-se que a pessoa em referência («este senhor») é a mesma pessoa que é «o meu professor», sugerindo que quem profere a frase só tem um professor.

Contudo, há também a possibilidade de omitir o artigo definido, com uma pequena diferença de significado:

(3) Este senhor é meu professor.

Em (3), indica-se que há outras pessoas que podem também ser «meu professor» ou «minha professora».

Trata-se, portanto, de um caso muito particular, que só se domina com algum tempo de prática de uso do português. Em todo o caso, não é um ponto essencial para a comunicação.

Quanto ao possessivo que ocorre na interrogação, não se trata de uma frase com o verbo copulativo ser, a forma normal em Portugal é a que associa o artigo definido ao possessivo:

(4) Qual é a sua profissão?

Há outras situações em que o artigo definido também se omite, mas são casos de expressões fixas, muitas vezes utilizadas no discurso escrito e oral mais formal:

(4) Esta casa está em meu nome. (ou seja, eu sou o proprietário oficial desta casa)

(5) Na conta do restaurante havia um erro a meu favor. (eu paguei menos do que devia)

Lembramos que, no Brasil, é mais frequente a omissão do artigo definido:

(6) Você conhece meu pai? (também o «meu pai»; em Portugal, a forma corrente é «o meu pai») 

Pergunta:

Na frase «F é contitular da conta bancária nº #########», o que é que é correto dizer e escrever?

"Contitular" ou "co-titular" (ou "cotitular")?

E, em consequência: "contitularidade" ou "co-titularidade" (ou "cotitularidade")?

Tenho visto, em locais diferentes – inclusive em decisões de tribunais – a utilização destas palavras e gostava de saber qual é a forma correta de o dizer e escrever.

Obrigado.

Resposta:

Usam-se ambas as formas, que estão corretas: contitular e cotitular.

Para quem prefere manter as regras do hífen da ortografia anteriormente vigente em Portugal, a forma escrita é co-titular.

A denominação do estado de cotitular/contitular de algo é, portanto, contitularidade ou cotitularidade.