Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Na frase «Frequentemente, dedicamos uma aula à leitura de poesia», a forma verbal tem valor iterativo ou habitual? Porquê?

Obrigada.

Resposta:

A frase apresentada veicula um valor aspetual gramatical habitual.

Tanto o aspeto iterativo como o habitual estão relacionados com a expressão da repetição de situações. O aspeto habitual descreve uma situação que «representa um padrão de repetição da situação suficientemente relevante a ponto de poder ser considerado como uma propriedade característica da entidade representada pelo sujeito gramatical»1. Por seu turno, o aspeto iterativo descreve uma situação «que se obtém quando uma situação é repetida numa porção espácio-temporal delimitada, mas sendo o conjunto dessas repetições perspetivado como um evento único»1.

Ora, na situação apresentada não se estabelece qualquer tipo de limite temporal para a situação descrita, pelo que ela é perspetivada como marcada por um padrão de repetição ilimitado. Por esta razão, veicula um valor aspetual habitual que é reiterado pelo advérbio de modo frequentemente.

Disponha sempre!

 

1.  Cunha in Raposo et al., Gramática do PortuguêsFundação Calouste Gulbenkian, p. 586.

Verbos para o Carnaval
Carnavalear e carnavalizar

Esta semana, a professora Carla Marques aborda a questão dos verbos que possam descrever situações relacionadas com o período de Carnaval.

(Programa Páginas de Português, da Antena 2, de 02/03/2024)

Pergunta:

Na frase «Submetendo-os a uma regra», qual a função sintática de «a uma regra»?

Complemento oblíquo ou complemento indireto? O verbo seleciona complemento indireto quando se encontra na forma reflexa, como em «Ele submeteu-se-lhe», mas não me parece que, neste contexto, a expressão iniciada por preposição seja complemento indireto, já que não seria aceitável a formulação «Submetendo-lhos».

Agradeço antecipadamente a vossa resposta.

Resposta:

O constituinte apresentado não constitui uma frase independente. Trata-se, antes, de uma oração que, por não ter autonomia sintática, se subordinará a outra oração numa frase complexa, como acontece, por exemplo, na frase (1):

(1) «Deu-lhes indicações sobre o modo de agir, submetendo-os a uma regra.»

O constituinte «submetendo-os a uma regra» é uma oração gerundiva e, no seu interior, o verbo submeter gera função sintática. Este verbo, usado com o sentido de «sujeitar», é transitivo direto e indireto, o que se verifica na oração em análise. Deste modo, o pronome os desempenha a função de complemento direto. Resta, agora, determinar a natureza do constituinte «a uma regra». Se aplicarmos o teste de pronominalização para identificação do complemento indireto, verificamos que ele não é possível:

(2) «*Deu-lhes indicações sobre o modo de agir, submetendo-lhes os amigos1

Isto significa que o verbo submeter rege a preposição a e que o constituinte «a uma regra» é um grupo preposicional com a função de complemento oblíquo2.

Disponha sempre!

 

*indica inaceitabilidade do teste.

1. Substituiu-se o pronome os pelo constituinte «os amigos» para clareza de análise.

2. Esta mesma análise é apresentada em Raposo, Dicionário gramatical de verbos portugueses. Texto editores.

Pergunta:

Pode esclarecer-me sobre os constituintes da frase «E queria passar a tarde a ver filmes»?

«A ver filmes» é modificador ou complemento oblíquo?

Resposta:

A oração «a ver filmes» desempenha a função sintática de complemento oblíquo.

No caso em análise, o verbo passar é usado numa construção que tem o sentido de «gastar tempo a fazer alguma coisa». Neste uso, este verbo é transitivo direto e indireto, tendo a seguinte estrutura: «passar + complemento direto + complemento oblíquo (=preposição a + oração não finita)1.

Assim, a oração não finita «ver filmes» está integrada no interior de um grupo preposicional introduzido pela preposição a. É este grupo preposicional que desempenha a função de complemento oblíquo. Note-se que se trata de um constituinte que não pode ser omitido da frase porque constitui um argumento do verbo, que o exige para completar o seu sentido, o que indica que não se trata de um modificador.

Disponha sempre!

 1. Cf. Raposo, Dicionário gramatical de verbos portugueses. Texto editores, p. 594.

 Nota (03/03/2025): Convém acrescentar que a análise apresentada decorre do Dicionário Terminológico, documento de apoio ao estudo da gramática no ensino básico e secundário em Portugal. No entanto, a estrutura em  questão é muito marginal e pode ter uma análise alternativa em gramáticas mais especializadas. Por exemplo, no quadro da Gramática do Português da Fundação Calouste Gulbenkian (2013-2020, pp. 1268-1270), é possível a leitura de passar como semiau...

A classificação do nome Sofia
Sílabas e acentuação

Como se classifica o nome próprio Sofia quanto ao número de sílabas e quanto à acentuação? Este é o assunto tratado neste apontamento pela professora Carla Marques.

(Programa Páginas de Português, da Antena 2, de 23/02/2024)