Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora
Etimologia da <i>gratidão</i>
Nos 28 anos do Ciberdúvidas

A professora e consultora do Ciberdúvidas Carla Marques assinala os 28 anos do projeto com o texto sobre as manifestações de gratidão. 

Pergunta:

Gostaria que me ajudassem na identificação de uma função sintática.

Na frase «Estes textos chegam a milhares de olhos.», qual a função sintática do segmento «a milhares de olhos»?

Grata pelo vosso apoio.

Resposta:

O constituinte «a milhares de olhos» desempenha a função sintática de complemento oblíquo.

O verbo chegar pode, entre outras possibilidades, ser usado como intransitivo ou como transitivo indireto.

Em (1) exemplifica-se o uso como intransitivo, no qual o verbo tem o sentido de «ter início»:

(1) «Chegou a primavera.»

Em (2), exemplifica-se o uso como transitivo indireto, no qual o verbo tem o sentido de «atingir o fim de uma deslocação»:

(2) «Ele chegou a casa.»

Neste último uso, o complemento oblíquo do verbo chegar tem, muitas vezes, um valor locativo. Todavia, este valor pode ser assumido metaforicamente por constituintes de outra natureza. É o que acontece no caso em apreço.

A presença de um complemento oblíquo também poderá ser identificada pelo teste de focalização:

(3) «O que é que ele fez a milhares de olhos? – *Chegou.»

(4) «O que é que ele fez? – Chegou a milhares de olhos.»

A inaceitabilidade da resposta em (3) mostra que o verbo chegar precisa de ter perto de si o constituinte «a milhares de olhos», como acontece em (4), o que nos leva a concluir que este constituinte é seu complemento.

Disponha sempre!

 

* assinala a aceitabilidade da resposta.

Pergunta:

Gostaria de saber qual a função sintática da palavra financeira na seguinte frase:

«D. Fernando (...) teria recebido dele um país em excelente condição financeira.»

A dúvida é se se trata de um modificador restritivo do nome ou de um complemento do nome.

Muito obrigada.

Resposta:

No caso em apreço, o adjetivo financeira desempenha a função de modificador de nome restritivo.

No contexto em que surge, o nome condição é independente, ou seja, não pede um complemento que complete o seu sentido. Por esta razão, o adjetivo financeira, ao juntar-se ao nome, vai restringir o seu significado, tal como aconteceria com outros adjetivos:

(1) «condição física»

(2) «condição espiritual»

(3) «condição intelectual»

Deste modo, concluímos que tanto financeira como os adjetivos presentes nas frases (1) a (3) desempenham a função de modificadores do nome restritivo.

Disponha sempre!

Pergunta:

Na frase «[...] homem magro, pálido, com aspeto de quem não vai ter muita vida para viver», que função sintática desempenha «de quem não vai ter muita vida para viver»?

Complemento do nome?

Por que razão «aspeto» pede complemento?

Em que categoria de nome se integra para o pedir?

Grata.

Resposta:

O constituinte «de quem não vai ter muita vida para viver» desempenha a função de complemento do nome aspeto.

Várias são as razões que poderemos aduzir para justificar a classificação anterior. Antes de mais, recordemos que na classe dos nomes distinguimos os nomes independentes dos nomes dependentes. Estes últimos «denotam tipicamente entidades do mundo que só podem ser apreendidas quando postas em relação com outras entidades»1. Vários são os exemplos de nomes dependentes que se poderão apresentar. Eis alguns deles:

(1) «amigo (de alguém)»

(2) «autor (de uma obra)»

(3) «casamento (de alguém com alguém)»

(4) «consequência (de algo)»

(5) «fatia (de bolo)»2

No caso do nome aspeto é particularmente evidente que, no contexto frásico em que surge, se comporta como nome dependente, pedindo, portanto, um argumento que complete o seu sentido. Daí a estranheza de (6):

(6) «?Era um homem magro, pálido, com aspeto»

O nome aspeto necessita de um constituinte que lhe permita denotar a relação entre duas entidades, pelo que terá como estrutura:

(7) «aspeto de algo/alguma coisa»

(8) «aspeto de alguém»

Recorde-se ainda que os argumentos dos nomes dependentes desempenham a função de complementos do nome e poderão corresponder a sintagmas preposicionais, pronomes possessivos ou orações (normalmente introduzidas por preposição).

Não existe uma tipologia que descreva de forma exaustiva as subclasses sintáticas e semânticas de nomes dependentes, pelo que nem sempre é fácil proceder a uma análise por meio do enquadramento de um nome numa dada subclasse. Não obsta...

Pergunta:

Em «itinerário da viagem», «da viagem» é um complemento do nome ou um modificador do nome restritivo?

Resposta:

O constituinte «de viagem» é, no caso em apreço, um complemento do nome.

O nome itinerário refere os «sítios por onde se passa ou para ir de um lugar até outro»1. Por esta razão, o constituinte «de viagem» completa o nome, expandindo a ideia de movimento no espaço, uma noção que, de certo modo, já se encontra em parte no nome itinerário.

Veja-se como em construções como «itinerário principal» ou «itinerário acidentado», os adjetivos já não expandem o nome, constituindo, portanto, elementos com a função de modificador do nome.

Disponha sempre!

 

1. Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa.