O Silêncio dos Poetas
precedido de "Reflexões sobre a função da arte literária", "Liberdade e aceitabilidade da obra literária" e de "A dimensão poética das lÍnguas"
Um livro que reúne quatro ensaios de Alberto Pimenta (Porto, 1938), escritor, poeta e ensaísta português que se tem distinguido pelas suas propostas de uma arte literária que põe em causa o uso convencional da linguagem.
A produção poética de Alberto Pimenta, a que se associa forte intenção de crítica social, insere-se numa linha da vanguarda literária da segunda metade do século XX, tendo como expoentes poetas e artistas como Ana Hatherly (1929-2015) ou Haroldo de Campos (1929-2003), que exploraram os caminhos da poesia experimental em Portugal e no Brasil. São criadores que procuraram (e procuram) novos rumos, rejeitando, por um lado, a referencialidade da arte literária tradicional, concebida como imitação de algo que lhe é exterior, e, por outro, como repetição de modelos e convenções estéticas. Trata-se, portanto, de um tipo de exercício da linguagem poética que, na prática, se afirma frequentemente pela irreverência, pois que desafia convicções e expetativas tradicionais acerca dos objetos e ações estéticas e poéticas. Como se lê na base de conhecimento do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (Universidade do Porto), «[f]alar de Alberto Pimenta é falar de política e de crítica aos poderes instituídos, como a Igreja, o Estado, o capitalismo».
O presente volume de quatro ensaios tem o interesse de focar vários aspetos da condição poética contemporânea, marcada pela conhecida frase do filósofo alemão T. W. Adorno (1903-1969): «nenhuma poesia é possível depois de Auschwitz». Ao encontro da frase vai o título O Silêncio dos Poetas, que é, afinal, o do quarto ensaio, que ocupa a maior parte do volume (pp. 113-266) e no qual o autor identifica as diferentes dimensões da ação poética dos nossos dias que pode chegar a conceber o silêncio como a alternativa ao esgotamento da palavra e dos discursos literários ocidentais.
Este ensaio extenso é precedido dos ensaios "Reflexões sobre a função da arte literária" (pp. 15-57), "Liberdade e aceitabilidade da obra de arte literária" (pp. 59-73) e "A dimensão poética das línguas" (pp. 75-112). O terceiro texto reveste-se de grande interesse por, nele, Alberto Pimenta dar conta da sua visão sobre os critérios que definem o uso poético da língua. Para quem veja a poesia como exercício da língua levado ao máximo potencial poderá, portanto, parecer chocante o que a seguir se transcreve (p. 81): «[...] é plausível supor que a poesia é um discurso que se serve da língua para lutar contra a língua [...]. [A] poesia não nasce como epifania da língua, como rapto brilhante das suas possibilidades combinatórias inovadoras, mas antes como a sua rejeição implícita, e às vezes explícita [...].»
Não sendo uma leitura fácil, não dizendo diretamente respeito a questões de inegável importância como sejam as da valorização social e política das línguas, O Silêncio dos Poetas aponta, no entanto, para renovados rumos estéticos e linguísticos.
