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Vices e ressabianço

Futebolês a propósito de Cristiano Ronaldo

«Eu também acho que CR7 é responsável e culpado, sim. Mas é por andar com a nossa Seleção às costas há 23 anos; por termos sido campeões europeus em 2016; vices no Euro 2004 [...]»
Miguel Frasquilho, "CR7 e mais 10!", A Bola, 21/06/2026

«Sabe de quem é a culpa? A culpa é da inveja, do ressabianço, é mesquinhez em relação ao Ronaldo. A culpa é do típico tuga, que gosta sempre de arranjar um saco de pancada [...].»
 Rodrigo Roquette arrasa críticos de Cristiano Ronaldo e critica Villas-Boas", Rapaziada 1906, Facebook, 23/06/2026, 03:18

A prestação da seleção de Portugal, após o primeiro jogo, que teve lugar em 17/06/2026 e se saldou por um empate com a seleção da República Democrática do Congo, gerou profunda insatisfação e pessimismo em Portugal, havendo críticas de vária ordem, algumas tomando Cristiano Ronaldo como alvo. O segundo jogo, agora com a equipa do Uzbequistão, que foi derrotada por 5-0 em 23/06, devolveu a esperança à Seleção Nacional, restaurou a fama e a glória de CR7, e levou a opinião pública portuguesa ao céu, euforicamente esquecida dos remoques e do azedume dos dias anteriores.

No meio de tanto comentário, desenvolve-se o discurso futebolístico – o futebolês – com a sua oratória, os seus recursos retóricos e a típica agilidade dos seus cultores na mistura de registos.  Dois exemplos recentes podem encontrar-se em contextos mediáticos distintos: vices e ressabianço.

A palavra vices, utilizada por Miguel Frasquilho (ver supra), corresponde ao plural de vice, empregado como redução de vice-campeão. Trata-se, portanto, da redução substantivada do prefixo vice-, num uso que está dicionarizado e pode referir-se a outras palavras como vice-diretor, vice-governador ou vice-presidente (cf. vice no Dicionário Houaiss) ou a qualquer outra designação de um cargo. O significado desta redução infere-se, portanto, facilmente:«aquele que ocupa cargo ou que detém categoria imediatamente inferior à de outro» (Infopédia). Associam-se ainda conotações que inscrevem certo tom de familiaridade (a que se tem, por exemplo, entre colegas, para referir superiores); mas, no caso em apreço, deteta-se alguma depreciação, suscitada pela insatisfação que deixa um segundo lugar numa competição (para não falar de terceiros e quartos lugares...).

Por seu turno, ressabianço, palavra empregada por Rodrigo Roquette (na epígrafe), constitui uma formação expressiva que deriva do verbo ressabiar, cuja forma participial ressabiado, «desgostoso, ressentido», é bastante corrente e ocorre, por exemplo, em expressões como «ficar ressabiado/a» ou «estar ressabiado/a» ou «ser um ressabiado/a», em que figura já convertida em nome. Ressabianço não é (ainda) palavra com registo lexicográfico, mas a sua manifestação decorre da produtividade do sufixo -anço, que «designa uma ação ou o resultado de uma ação e tem, geralmente, sentido pejorativo» (Infopédia), em casos como os de falhanço ou rapinanço, amiganço, espalhanço, gabanço (ibidem e dicionário da Academia das Ciências de Lisboa). Uma característica comum a todos estes nomes derivados é a de resultarem da adjunção de -anço a radicais de verbos da primeira conjugação (falhar, rapinar, amigar, espalhar, gabar). Dir-se-ia, portanto, ressabianço nã o precisa de legitimação dicionarística, porque ressabiar é verbo da 1.ª conjugação e o derivado que toma o seu radical por base já existia potencialmente. Pelo seu carácter episódico, pode incluir-se num tipo de palavras complexas que a investigação em lexicologia tem denominado ocasionalismo1.

Vice e ressabianço merecem, pois, toda a atenção, quer por a sua morfologia revelar interessantes matizes semânticos, quer por darem testemunho da flexibilidade da língua, que adapta os recursos disponíveis às necessidades expressivas e comunicativas do momento.

1 Ocasionalismo segue as formas espanhola ocasionalismo e francesa occasionalisme, que traduzem o inglês nonce-word, termo proposto por Laurie Bauer (English Word-formation, 1983) para identificar «neologismos complexos que são criados por um falante/escritor para suprir uma necessidade imediata» (cf. Pedro Javier Bueno Ruiz, "La creatividad léxica: tendencias en la formación de ocasionalismos por prefijación", Terminàlia 24, 2021, p.  19).

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