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Quando o género gramatical diverge

Diferenças entre o português e o espanhol

O género gramatical é uma categoria cuja análise suscita sempre curiosidade e momentos interessantes de reflexão. Do ponto de vista gramatical, o género serve para classificar nomes, sendo que as palavras de outras classes, como os adjetivos, e que estabelecem com o nome relações de concordância são também marcadas por valores de género. Um dos aspetos mais curiosos relativos ao género gramatical é o facto de nem todas as línguas do mundo apresentarem sistemas de classificação nominal baseados nesta categoria. Mesmo entre as línguas que exibem género, observa‑se uma multiplicidade de critérios subjacentes à atribuição dos valores masculino, feminino ou, nalguns sistemas linguísticos, neutro. A própria evolução histórica das línguas românicas atesta bem esta diversidade de caminhos.

Entre os fenómenos que mais despertam atenção está a diferença de género entre palavras cognatas em português e em espanhol. Apesar da proximidade lexical e estrutural entre ambas as línguas, não é raro que um mesmo étimo latino dê origem a substantivos que divergem no género. Assim sucede em pares como «a viagem» vs. «el viaje», «a cor» vs. «el color», «a mensagem» vs. «el mensaje» ou «a ponte» vs. «el puente». Estas discrepâncias, longe de constituírem simples irregularidades, refletem processos históricos distintos e a influência de padrões morfológicos que se consolidaram de modo particular em cada língua.

Uma parte significativa destas divergências encontra explicação na herança latina. O português e o espanhol descendem, como é sabido, do latim, cuja categoria de género está organizada num sistema tripartido, isto é, masculino, feminino e neutro. Contudo, quando línguas como o português e o espanhol surgem, o neutro desapareceu, obrigando a uma redistribuição do género de inúmeros nomes. Palavras que no latim eram neutras puderam ser reclassificadas segundo critérios diversos ou através de processos produtivos de formação lexical. É o que ocorre, por exemplo, com viaticum e missaticum, étimos de viagem e mensagem. Em português, a consolidação do sufixo ‑agem como marca feminina atraiu essas palavras para esse género. Já o espanhol desenvolveu o sufixo equivalente ‑aje numa direção predominantemente masculina, o que explica el viaje e el mensaje.

Noutros casos, como cor e ponte, a evolução mostra o cruzamento entre etimologia e analogia interna. Embora color e pons fossem masculinos no latim, o português acabou por integrar as formas evoluídas cor e ponte num conjunto de nomes femininos, possivelmente por associação a outras palavras com características fonéticas semelhantes. O espanhol, pelo contrário, preservou o género etimológico, preservando assim o masculino em el color e el puente.

Resumindo, estes casos revelam que a atribuição do género gramatical não obedece a uma lógica universal, mas ao resultado sempre complexo de forças históricas, fonéticas e estruturais. A evolução interna de uma língua pode privilegiar certos padrões morfológicos, enquanto outra língua, embora tipologicamente próxima, segue trajetórias diferentes. Assim, quando um falante estranha que «a viagem» corresponda a «el viaje», ou que «a ponte» seja «el puente», essa surpresa não é senão um reflexo da própria vitalidade das línguas e da forma como, a partir de uma origem comum, se podem desenvolver sistemas gramaticais que, embora semelhantes, mantêm idiossincrasias reveladoras da história que transportam.

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