Pessoas que corrigem os erros gramaticais dos outros são chatas. Será? - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa O nosso idioma Artigo
Pessoas que corrigem os erros gramaticais dos outros são chatas. Será?
Pessoas que corrigem os erros gramaticais dos outros são chatas. Será?
Língua, escrita e saúde cultural

«[...] eu devo ser um chato de galochas, afinal sou muito rigoroso com erros de escrita em geral, ou porque revelam falta de cuidado e esmero (no caso dos erros de digitação) ou falta de cultura (no caso dos erros gramaticais).»

 

Uma pesquisa recentemente publicada na revista científica PLOS One [em inglês] revela que pessoas que se sentem incomodadas com os erros gramaticais alheios e, mais ainda, tendem a corrigi-los, têm personalidade menos agradável e mais julgadora – ou seja, são chatas!

O estudo mostrou também que a personalidade pode determinar como ela reage aos erros de gramática dos outros, inclusive àqueles que pululam nas redes sociais.

Julie Boland e Robin Queen, ambas da Universidade de Michigan, fizeram experimentos com 83 participantes para saber como se comportavam diante de e-mails escritos. Algumas dessas mensagens propositalmente continham erros de digitação ou de gramática.

Os participantes deveriam julgar os autores dos e-mails do ponto de vista de sua suposta inteligência – ou falta dela. Além disso, tinham de comentar os erros das mensagens e dizer se causaram incômodo durante a leitura.

Por fim, foram submetidos a um teste de personalidade que mede traços como simpatia, grau de extroversão e até mesmo neuroticidade.

A maioria dos participantes classificou de modo mais negativo os autores de e-mails com erros. E os mais introvertidos foram mais severos em relação a tais erros do que as pessoas mais abertas e extrovertidas.

Em linhas gerais, a pesquisa conclui que as pessoas mais “fechadas” são mais sensíveis a erros, sejam de digitação ou gramaticais, e que as mais rigorosas em relação à gramática são também as mais desagradáveis no trato social.

Bem, se esse estudo estiver correto, eu devo ser um chato de galochas, afinal sou muito rigoroso com erros de escrita em geral, ou porque revelam falta de cuidado e esmero (no caso dos erros de digitação) ou falta de cultura (no caso dos erros gramaticais). Não que eu saia por aí corrigindo meus interlocutores, pois isso seria falta de educação: quem fala ou escreve errado (isto é, fora do padrão culto) o faz certamente porque não teve oportunidade de estudar. Mas o fato é que fui por um bom tempo professor de português, e, como vocês sabem, o hábito do cachimbo deixa a boca torta. Mais do que isso, como amante das letras e das línguas, fico incomodado não tanto pelos erros em si quanto pela quantidade deles. Se o modo como as pessoas escrevem a própria língua é um termômetro da saúde cultural de um povo, posso afirmar sem erro que o Brasil está na UTI.

Fonte

Texto do linguista brasileiro Aldo Bizzocchi, que o publicou no seu blogue Diário de um Linguista (14/05/2019).

Sobre o autor

Linguista brasileiro, é doutor em Linguística pela USP, pós-doutorado pela UERJ, pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da USP e autor de Léxico e Ideologia na Europa Ocidental e Anatomia da Cultura . Faz ainda parte dos grupos de pesquisa Semiótica, Leitura e Produção de Textos (SELEPROT) e Morfologia Histórica do Português (GMHP), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Também é poeta e tradutor (ver sítio pessoal e blogue associado à revista brasileira Língua Portuguesa).