Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa O nosso idioma Artigo
Obrigado eu
Obrigado eu

Entre modismos de diversa proveniência e os chamados socioletos, de antes e depois do advento da internet, das redes sociais e dos "smartphones", uma «enxurrada de novas palavras» nos usos do português coloquial no Brasil – nesta crónica do autor publicada na versão digital da revista Carta Capital de 9 de abril de 2015.

 

 

Tinha eu quatorze anos de idade, quando o meu pai começou a implicar com o meu jeito de falar. Ele não entendia o tal do «falou, bicho», já que bicho não fala. Quando eu dizia «é isso ai, amizade», ele me perguntava se eu era mesmo amigo daquela pessoa.

Com a jovem guarda, uma enxurrada de palavras novas começaram a se espalhar pelos quatro cantos do país e cada novidade que eu trazia pra casa era motivo de quase briga.

Ele não entendia o que era «papo furado», tampouco «é uma brasa, mora». Toda vez que eu falava brasa, ele resmungava: Onde é que está quente? Na verdade, eu achava tudo isso um saco.

Essas novidades na língua portuguesa não começaram com Roberto Carlos. São mais velhas que o rei, acredite. O meu pai falava supimpa, por exemplo, e eu nem ligava.

Bom, aí o tempo foi passando, o mundo girando e novas palavras aparecendo. Apareceram as palavras deletar, postar, escanear, digitalizar, essas coisas todas.

Teve a onda do inglês que transformou o estagiário em trainee, o entrega em domicílio em delivery, a liquidação em sale e o retorno em feedback.

Inventaram o pet shop, internet banking e o smartphone.

Minhas filhas quando adolescentes, tive de engolir o mó legal e o sussa. Sem contar o então, depois de qualquer pergunta:

– Que horas são?

– Então...

– Você vai pra praia no final de semana?

– Então...

Mas passou como tudo tende passar, como tudo tem de passar.

Na escrita, já me acostumei com o blz no lugar de beleza, com o vc no lugar de você, abs no lugar de abraços e com o tks no lugar do thank you.

Já me acostumei com as risadas que viraram rs rs rs, hahaha ou hehehe.

O que está me deixando implicado agora, do mesmo jeito que o meu pai implicava com o bicho e a brasa, é o que vem depois do obrigado. Eu sempre falei de nada, mas agora é diferente.

Obrigado.

– Imagine...

Mas isso não é nada. O pior de tudo é quando você diz obrigado e a pessoa responde:

– Obrigado eu.

Fonte

Crónica publicada na versão digital da revista Carta Capital de 9 de abril de 2015.

Sobre o autor

Alberto Villas, jornalista e escritor brasileiro.