Hoje, escrevo por defeito (e à condição) - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Hoje, escrevo por defeito (e à condição)
Hoje, escrevo por defeito (e à condição)

«(...) Já se viu o que seria uma pessoa “à condição” no tribunal? E será que um arguido julgado à revelia é-o “à condição”? No caso da estafada frase em futebolês “primeiro classificado à condição”, melhor seria dizer “líder provisório”. (...)»

 

 

Com ou sem acordo ortográfico, ouvem-se e lêem-se, com frequência, expressões de modismos mais ou menos tecnocráticos e de anglicismos forçados.

Sobretudo no futebol, propaga-se em toda a linha, o paupérrimo «à condição». É assim que se diz e escreve em quase todo o lado, quando, por exemplo, uma equipa fica «líder à condição». Os entendidos da bola teimam em falar de classificações antes de concluída uma qualquer jornada, usando aquela deficiente expressão. Confesso que tenho saudades do tempo em que os jogos se realizavam nas tardes de domingo, todos à mesma hora. Pelo menos, nessa altura, não havia classificações «à condição». Neste contexto, bem se poderá concluir que esta expressão «à condição» é culpa da televisão que obrigou a «jornadas dominicais» estendidas por 4 dias!

A expressão «à condição» exige dizer-se qual ela é. Porque condições há muitas... Se eu disser simplesmente «estou à condição», entender-se-á que a minha frase, além de um indigente modo de expressão (deveria dizer «sob condição»), está incompleta (qual é, afinal, a condição?). Já se viu o que seria uma pessoa «à condição» no tribunal? E será que um arguido julgado à revelia é-o «à condição»? No caso da estafada frase em futebolês «primeiro classificado à condição», melhor seria dizer «líder provisório». Aliás, «à condição» é como estão todas as equipas antes de jogarem: a condição de jogarem mesmo. Na primeira jornada até todos os competidores serão campeões «à condição”...

Uma outra expressão, agora muito em voga, é a tradução literal de «by default» («por defeito»). Muito usada na linguagem informática, expandiu-se endemicamente no uso e no abuso. Com a ridícula consequência de se poderem confundir três leituras possíveis: a que resulta directamente da expressão inglesa (que, verdadeiramente, quer dizer «por omissão», «por predefinição», «por norma»); a que está associada ao verdadeiro significado da palavra defeito enquanto imperfeição ou deformidade; ou ainda a expressão quantitativa de insuficiência que se opõe a «por excesso» (por exemplo, «O PIB foi avaliado por defeito»).

Com o avanço, de um modo de todo deslocado, da asserção «por defeito» com o significado da expressão inglesa, não faltará muito tempo para se dizer, com aparente naturalidade, por exemplo, «fez mal (ou bem), por defeito», «sem carro, foi a pé, por defeito», «como era o único candidato à liderança do partido, ganhou por defeito», «era palhaço, por defeito», «passou a ser ateu, por defeito»... Enfim, de defeito em defeito, até onde chegará o dito defeito?

Finalmente, entre os muitos anglicismos adoptados, há um que medra em escala logarítmica: o que advém do inglês «to realize», que quer dizer notar ou aperceber-se. Por simpatia, o verbo realizar tem sido replicado no nosso idioma com o mesmo significado do verbo inglês. Ora, realizar significa, em bom português, efectuar, conseguir, fazer, concretizar, «pôr em prática», «dirigir um filme», produzir. Mas há pessoas, sobretudo nas camadas ditas mais eruditas ou socialmente mais presentes, que, sistematicamente, usam o verbo no sentido que a palavra tem em inglês («ele só ontem realizou que os impostos subiram»). Como diria Júlio Verne, «tudo o que um homem é capaz de imaginar, outro é capaz de realizar».

Juntando estas breves notas, termino com uma charada de mau português: «Nos próximos dias, escreverei, à condição, sobre um tema que, por defeito, possa incluir neste blogue e que os leitores possam realizar». Fiz-me entender?

Fonte

 in jornal Público de 16 de fevereiro de 2017, conforme a norma ortográfica seguida pelo autor.

Sobre o autor

Economista, professor universitário português, várias vezes chamado a exercer funções governativas. Comentador e colunista em diversos órgãos de comunicação portugueses, é autor, entre outros livros, de Do lado de cá ao deus-dará (2002), e O cacto e a rosa (2008), Prefácio sobre a "origem do conto do Vigário" de Fernando Pessoa (2011) e Trinta árvores em discurso directo (2013). Sobre o autor, mais aqui.