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Fitsexual: um neologismo em boa forma?

Há palavras que entram na língua pela porta dos dicionários, outras, pela porta da atualidade. Fitsexual pertence, para já, ao segundo grupo. O termo ganhou recentemente visibilidade em notícias e publicações dedicadas a uma alegada nova tendência nos relacionamentos: pessoas para quem o culto do corpo, do treino, da alimentação e da condição física ocupa um lugar tão central que acaba por influenciar a forma como vivem a sua vida afetiva e escolhem os seus parceiros.

Independentemente da consistência sociológica do fenómeno, a palavra merece a atenção de quem se interessa pela língua. Afinal, o que é fitsexual? E fará sentido considerá-la um neologismo válido?

À primeira vista, fitsexual parece designar uma orientação sexual. O elemento -sexual remete-nos de imediato para palavras como heterossexual, homossexual ou bissexual. No entanto, a interpretação rapidamente se revela insuficiente. Neste caso, não está em causa a orientação do desejo, mas um determinado perfil relacional: alguém para quem o universo fitness , nomeadamente o treino, a alimentação, a estética corporal e o desempenho físico, se torna um critério relevante na construção da identidade e nas escolhas afetivas.

Do ponto de vista da formação das palavras, podemos afirmar que estamos perante um neologismo híbrido. O primeiro elemento, fit, chega-nos do inglês, onde funciona como abreviação de fitness e significa, em sentido lato, «em boa forma». O segundo elemento, -sexual, integra já o sistema lexical do português e revela-se particularmente produtivo na criação de novas designações.

Aliás, este não é o primeiro caso em que -sexual se afasta do seu significado mais tradicional. Basta recordar metrossexual, termo popularizado no final da década de 1990 para designar um homem urbano particularmente atento à aparência e aos cuidados pessoais. Mais recentemente, palavras como sapiossexual ou demissexual vieram confirmar que este elemento tem sido convocado para nomear realidades muito diversas. Nalguns casos, descreve formas de atração, noutros, identidades, comportamentos ou estilos de vida. Fitsexual parece inscrever-se precisamente nesta evolução semântica.

Curiosamente, não se trata de um vocábulo plenamente estabilizado nem sequer na própria língua inglesa. As ocorrências conhecidas aparecem sobretudo em publicações ligadas ao universo fitness e em conteúdos digitais, o que dificulta a identificação de uma origem precisa. Mais do que um empréstimo lexical consolidado, fitsexual parece ser um daqueles internacionalismos contemporâneos que circulam rapidamente entre línguas graças ao ecossistema digital e à difusão global das tendências.

Importa ainda responder a uma questão: será fitsexual um neologismo válido?

É ainda cedo para o saber. A palavra é recente e a sua difusão parece limitar-se, por enquanto, ao discurso mediático e ao universo fitness. Caberá ao uso decidir se se fixa na língua ou se permanece apenas como um rótulo passageiro.

Uma última curiosidade diz respeito à palavra shape, que surge na imagem que acompanha este texto. Embora em inglês tenha um campo semântico mais amplo, em português o seu uso especializou-se e passou a designar, quase sempre, um corpo musculado, definido e esteticamente valorizado. Assim, em vez de recorrermos ao anglicismo em expressões como «ter shape» ou «ganhar shape», podemos optar por alternativas portuguesas, como «ter boa forma», «estar em forma», «ter boa condição física» ou, conforme o contexto, «ter um físico definido». Afinal, nem sempre é necessário recorrer ao inglês quando o português oferece soluções igualmente expressivas.

Fonte

Imagem retirada do Instagram bahiarun360 e treinoeposto.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa