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Feminismo

Uma palavra muito pesquisada em agosto de 2026

Durante o mês de agosto (de 2026), uma das seis palavras mais pesquisadas no Dicionário da Língua Portuguesa da Infopédia foi, pasme-se, feminismo. A palavra terá suscitado este pico de atenção talvez devido a publicações que circularam nos jornais e nas redes sociais relativas à criação de um tal «movimento das mulheres conservadoras», cujas fundadoras se propõem defender os «"valores tradicionais" e lutar contra o feminismo contemporâneo». Dir-se-ia que muitos usuários da Infopédia não conheciam o termo e, por isso, foram levados a pesquisá-lo, como se o feminismo tivesse nascido ontem, mas tal não é o caso.

Muito haveria a dizer sobre o anacronismo e a impertinência do referido movimento num país em que, por exemplo, cresce a violência doméstica e no namoro, e a igualdade salarial continua a ser uma miragem. Mas falemos, antes, da palavra feminismo, que tem cognatos em muitas línguas europeias.

Féminisme surgiu originalmente em francês, em 1837, num texto de François Marie Charles Fourier, para designar a doutrina que propunha a extensão do papel das mulheres na sociedade. Por seu turno, a primeira atestação de feminism em inglês é da década de 1840. Para o português, o Dicionário Houaiss indica 1905 como data da primeira atestação de feminismo e O Malho (semanário publicado no Rio de Janeiro) como fonte. A Infopédia apresenta duas aceções para feminismo: «1. doutrina que advoga a defesa dos direitos das mulheres, com base no princípio da igualdade de direitos e de oportunidades entre os sexos; 2. movimento (político, social, cultural, etc.) que procura pôr em prática essa doutrina.»

Em Portugal, os primeiros movimentos feministas datam da 1.ª República. Em 1911, Beatriz Ângelo tornou-se a primeira mulher a votar em eleições, em Portugal e na Europa, por reivindicar o seu estatuto de chefe de família.

Durante o Estado Novo, o feminismo foi silenciado e as mulheres viram os seus direitos restringidos. Por exemplo, a principal lei eleitoral do regime, o Decreto-Lei n.° 35 426, de 1945, determinava que podiam votar as mulheres maiores e emancipadas, com habilitações literárias ou que, sendo chefes de família (ou seja, «mulheres viúvas, divorciadas, judicialmente separadas de pessoa e bens ou solteiras, com reconhecida idoneidade moral») pagassem impostos no valor não inferior a 100$00. Ficava excluída do direito ao voto «a mulher casada que não esteja judicialmente separada de pessoas e bens, e cujo marido possua capacidade eleitoral».

Foi preciso esperar por 1976 para que a alínea h) do Art.º 9.º da Constituição da República Portuguesa definisse como tarefa fundamental do Estado a de «Promover a igualdade entre homens e mulheres», mas esta igualdade está longe de ter sido alcançada.

Em suma, o conceito de feminismo tem cerca de dois séculos e na língua portuguesa a palavra tem mais de 120 anos. O feminismo está vivo e continua a fazer todo o sentido. Não deixa, portanto, de surpreender, e até inquietar, que, no início do segundo quartel do século XXI, a palavra feminismo tenha tanta procura num dicionário online.

Na imagem, sufragistas da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (suplemento do jornal O Século, 12/05/1910): 5 - Ana de Castro Osório; 6 - Maria Veleda; 7 - Beatriz Paes Pinheiro de Lemos; 8 - Maria Clara Correia Alves; 13 - Sofia Quintino; 14 - Adeleide Cabete; 15 - Carolina Beatriz Ângelo; 16- Maria do Carmo Joaquina Lopes (crédito: Wikimedia Commons, sob licença CC BY-SA 4.0).

Fonte

Crónica incluída no programa Páginas de Português (11/10/2026) e aqui partilhada com autorização expressa da autora. 

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa