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Manosfera ou machosfera?

Terminologia do ódio

«Manosfera é uma palavra opaca, visto que, a partir da sua forma, não conseguimos inferir o seu significado, situação sempre de evitar [...].»

Esta era em que vivemos, na qual ideologias e comportamentos até aqui tidos como repugnantes e insuportáveis cedo se transformam em “normais”, traz também consigo os seus próprios neologismos. Entre estes, estão as formas manosfera, machosfera ou «masculinidade tóxica», todas variantes denominativas de conceitos relacionados, ou putativamente sinónimas. Mas, como a sinonímia absoluta é um mito, tratemos de as dissecar brevemente.

O dicionário Merriam-Webster regista o termo manosphere, hibridismo construído, provavelmente, por analogia com blogosphere, juntando man («homem») e -sphere («esfera»), ligados pela vogal -o-, característica dos compostos cujo segundo elemento é de origem grega. O dicionário informa que o termo data de 2011 e define-o como «uma rede de sites, fóruns online e outros media digitais tipicamente caracterizados por visões antifeministas e misóginas e pela promoção de modelos ultraconservadores de masculinidade».

Em português, manosfera, decalque formal do termo inglês, está já registada na Infopédia, que regista também a entrada machosfera, descrevendo ambas exatamente da mesma forma, mas sem dar conta da ligação evidente entre elas, o que constitui erro lexicográfico a corrigir. Manosfera é uma palavra opaca, visto que, a partir da sua forma, não conseguimos inferir o seu significado, situação sempre de evitar, porque a transparência lexical promove a compreensão dos conceitos. Já machosfera é uma palavra transparente, visto que podemos facilmente identificar como seu primeiro elemento macho, mais usado nos domínios da Biologia e da Zoologia e que, quando usado para falar de seres humanos do sexo masculino, ganha uma nuance semântica de exacerbação da masculinidade e conotações pejorativas. Ora, também por estas razões, machosfera é forma mais adequada do que manosfera. De resto, quando a palavra macho serve de base a machismo transporta consigo as referidas nuances semântica e discursiva, como pode verificar-se pelas definições do termo machismo na Infopédia: «atitude de prepotência ou dominação do homem em relação à mulher» e «sexismo assente na noção de uma suposta superioridade do sexo masculino face ao feminino». Machismo não é, portanto, um inocente antónimo de feminismo como alguns machos (ou manos) nos querem fazer crer; é muito mais do que isso.

«Masculinidade tóxica» é uma forma mais objetiva e fofinha de falar da ideologia que fundamenta a machosfera, assim a dar para o termo científico, mas de cientificidade falsa, visto que a superioridade dos machos é apenas suposta e não verificada cientificamente. 
Ideologias e crenças como as que sustentam os machismos, as machosferas e outras “machices” pretendem assentar numa suposta pré-determinação natural, zoológica, da desigualdade entre os sexos, como se a espécie humana não se distinguisse das demais espécies zoológicas e os seres humanos não fossem seres inteligentes e capazes de evoluir, o que nos pode levar a questionar a natureza e a inteligência dos que perfilham tais crenças e ideologias.

Machismos, machosferas e quejandos visam, antes de mais, promover fraturas sociais, iniquidade, ódio e sujeição de uns humanos por outros, supostamente mais fortes e capazes. É assim uma espécie de darwinismo mal-atamancado. Mesmo no interior da machosfera, classificações pseudocientíficas dos machos em alfa, beta, gama, ómega e sigma, assim a armar em cultura clássica, mais não são do que mecanismos que estabelecem clivagens, hierarquias e sistemas de dominação entre os próprios machos e fomentam o ódio e a intolerância.

Se estas modernices fossem apenas modas inócuas e passageiras, até nos poderiam divertir. Infelizmente, elas trazem a chancela do pior que há nas redes sociais, moldam as mentes e os comportamentos das próximas gerações e não auguram nada de bom.

Fonte

Artigo incluído no programa Páginas de Português em 18/10/2026 e aqui partilhado com autorização da autora. Imagem gerada por IA (ChatGPT).

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