Gramática, para que te quero - Ensino - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa Ensino Artigo
Gramática, para que te quero
Gramática, para que te quero
Da necessidade do estudo da linguagem e da sua estrutura

«Porque é que a linguagem e a sua estrutura – a Gramática – não pode ser estudada por si só, tal como qualquer fenómeno da Física ou da Biologia - como matéria de direito próprio?»

 

Verbos, advérbios, complementos, sintagmas, orações relativas… são termos que os alunos imediatamente reconhecem como pertencendo à Gramática. E gramática, para eles, significa classificações e exemplos para decorar, seguidas de listas ou frases para preencher. Ou seja, um grande aborrecimento.

A ideia de que o estudo da Gramática é uma coisa desinteressante recebe, por vezes, eco de alguns pedagogos e até de académicos da área das humanidades. Logo a seguir, fala-se no horror que era dividir as estâncias de Os Lusíadas em orações e no horror que é ter de saber nomes estranhos como “complemento oblíquo” ou “modificador do grupo verbal” e outras classificações impostas pela TLEBS ou Dicionário Terminológico.

Sobre a Gramática, ou qualquer outra matéria de outra área do saber, ser ou não ser interessante há desde logo a dizer que para pessoas interessantes tudo é interessante. E que muitas vezes o que se passa é que os alunos desconhecem que são pessoas interessantes, porque ninguém os trata como tal.

Mas especificamente, no caso da Gramática, vejamos o seguinte:  a linguagem verbal é o traço primordial que nos distingue dos restantes animais; a linguagem verbal é o instrumentário que nos permite pensar, raciocinar, imaginar, criar, de maneira cada vez mais complexa. Se assim é, em que medida é que a linguagem é menos interessante de estudar do que estudar o ciclo da água ou a estrutura do átomo? Porque é que a linguagem e a sua estrutura – a Gramática – não pode ser estudada por si só, tal como qualquer fenómeno da Física ou da Biologia - como matéria de direito próprio?

Depois de passarmos a etapa do mais ou menos interessante, a acusação seguinte é a de que saber gramática não serve para nada. Mas então a escola agora só pode ensinar o que tem aplicabilidade imediata? Não quero pôr a Gramática a rivalizar com nenhuma outra matéria das outras disciplinas, mas aquilo que a Gramática tem mais é aplicabilidade imediata. De que modo? Tornando eficiente o processo de leitura e escrita do aluno.

Um exemplo. Imaginemos: o professor está a ensinar a escrever um texto descritivo. Como é que ele o faz sem falar em adjetivos, verbos copulativos, locuções prepositivas e adverbiais que são os ingredientes do texto descritivo? De modo que há duas hipóteses: se durante a aula, na sua tentativa de redigir um texto descritivo, o aluno escrever «O meu cão é grande, feroz e animal» o professor que acha que a gramática não serve para nada dirá que a frase soa mal e que, portanto, o aluno deve escrever outra e pronto. Mas o professor que sabe para que serve a gramática dirá que a frase não tem pertinência informativa porque “animal” é hiperónimo de “cão” e que as duas palavras anteriores na frase são adjetivos e que a terceira palavra também deverá ser um adjetivo.

Agora a pergunta é: se o aluno desconhece a nomenclatura gramatical por completo, como é que o professor pode explicar a correção que faz ao texto do aluno? Fica-se pelo soa bem/soa mal? Deixamos a cargo do aluno apanhar-lhe o jeito? Mas se é o aluno que tem de lhe apanhar o jeito, a pergunta já não é «para que serve a gramática?», a pergunta é «para que serve a escola?»

Fonte

Texto de  Ana Sousa Martins para a rubrica "Cronigramas" do programa Páginas de Português, emitido pela Antena 2 em 4/11/2018.

Sobre a autora

Mestra e doutora em Linguística Portuguesa, desenvolveu projeto de pós-doutoramento em aquisição de L2 dedicado ao estudo de processos de retextualização para fins de produção de materiais de ensino em PL2 – tais como  A Textualização da Viagem: Relato vs. Enunciação, Uma Abordagem Enunciativa (2010), Gramática Aplicada - Língua Portuguesa – 3.º Ciclo do Ensino Básico (2011) e de versões adaptadas de clássicos da literatura portuguesa para aprendentes de Português-Língua Estrangeira.Também é autora de adaptações de obras literárias portuguesas para estrangeiros: Amor de Perdição, PeregrinaçãoA Cidade e as SerrasContos com Nível é o seu último livro. Consultora do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa e responsável da Ciberescola da Língua Portuguesa