«Acho que o grego se tornou uma espécie de droga para mim» - Ensino - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Início Português na 1.ª pessoa Ensino Artigo
«Acho que o grego se tornou uma espécie de droga para mim»
«Acho que o grego se tornou uma espécie de droga para mim»
Frederico Lourenço defende as línguas clássicas a propósito da sua Nova Gramática do Latim

«(...) [O latim] é uma língua que proporciona o prazer de um jogo altamente inteligente: é o xadrez das línguas. Bastam duas ou três aulas para um jovem perceber de imediato a outra mais-valia do latim, que é a de arrancar o véu ao português, por assim dizer, mostrando a lógica por trás da sua própria língua materna (...).»

 

Até aos 20 anos, Frederico Lourenço quis ser pianista. Depois, apercebendo-se da sua falta de talento, decidiu optar por algo verdadeiramente desafiante — voltou a repetir o 11.º e 12.º anos para aprender grego e latim e entrou para o curso de Línguas e Literaturas Clássicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde chegou a dar aulas (hoje está associado à Universidade de Coimbra, onde tirou o doutoramento com uma tese sobre os cantos líricos de Eurípides).

Apesar de ter uma grande paixão por latim, foi o grego que atraiu desde o início a sua preferência. Foi a esta língua que dedicou as duas primeiras grandes traduções que fez e publicou — os dois poemas homéricos, a Ilíada e a Odisseia —, antes de mergulhar nessa enorme aventura que tem sido a tradução da Bíblia grega. Nesse capítulo, o classicista, que já publicou quatro volumes, encontra-se neste momento a terminar de traduzir os livros sapienciais, seguindo depois para os históricos. Quando irá terminar o projeto não sabe dizer: “A tradução tem de respirar, porque o tradutor também precisa de respirar”.

Apesar de os últimos anos da sua vida terem sido dedicados ao grego, língua sem a qual admite que já não conseguir viver, Lourenço decidiu voltar ao latim (a que, curiosamente, dedicou a tese de mestrado) e organizar a primeira gramática de língua latina publicada em Portugal desde 1974. Editada em março pela Quetzal, a grande diferença desta Nova Gramática do Latim em relação às outras que existem no mercado livreiro está “no horizonte que pretende transmitir”. “Não quero dar a conhecer o latim de uma maneira que o torne mofento e desinteressante”, explicou o tradutor numa entrevista concedida por email por falta de disponibilidade para se encontrar pessoalmente com o Observador. “O meu livro pretende ser um argumento a favor do interesse intrínseco da língua latina.”

Depois de uma Nova Gramática do Latim o mais natural é que surja um Nova Gramática do Grego, um projeto que o classicista admite querer cumprir. Mas talvez o que Frederico Lourenço mais gostasse de fazer era “um bom dicionário grego-português”, que cobrisse ” a literatura grega de Homero ao Novo Testamento”. Isso é “um sonho que adoraria realizar”.

 

Tem-se dedicado sobretudo ao estudo e tradução do grego, estando há já alguns anos a traduzir a Bíblia. Porque é que decidiu fazer uma gramática de latim? E porquê agora?

Tenho uma grande paixão pela língua latina e comecei, de resto, o meu percurso profissional como professor de latim do ensino secundário. Curiosamente, estes últimos anos a traduzir a Bíblia têm trazido o latim de volta ao meu quotidiano, porque acompanho o trabalho de tradução do texto grego com a leitura palavra a palavra da Vulgata, que considero um texto de alta beleza. Aliás, vejo o Antigo Testamento tal como nos surge na Vulgata como um objeto textual mais belo do que a Septuaginta, o Antigo Testamento grego.

No “Preambulum” desta Nova Gramática do Latim, diz que muitos alunos ainda usam, sem darem conta, programas e metodologias do tempo de Salazar. O que é que quer dizer com isso?

A gramática de latim mais usada em Portugal já ia na 5.ª edição no ano em que eu nasci (1963) e foi usada pelos meus pais para fazerem o antigo exame do 7.º ano do liceu. É natural que espelhe, por isso, o antigo programa de latim do tempo do Estado Novo. Sobretudo espelha um ponto de vista em relação à aprendizagem da língua que não faz sentido hoje, porque torna o latim desnecessariamente difícil. Talvez isso servisse os propósitos da escolaridade do tempo de Salazar, cujo objetivo era excluir o maior número possível de cidadãos de uma escolaridade avançada. Hoje não faz sentido acumular tanta informação secundária e redundante.

Quando estava na faculdade, sentiu que as gramáticas disponíveis eram antiquadas e que não existia um método novo, claro e fácil?

Quando estava na faculdade não estudava por gramáticas em língua portuguesa, porque os nossos professores eram os primeiros a dizer que as boas gramáticas estavam escritas em francês ou inglês. Depois descobri que isso não é verdade: as melhores gramáticas de latim e de grego são em alemão. Um problema persistente dos Estudos Clássicos tem sido a falta de bons materiais em português para aprender grego e latim. A certa altura comecei eu próprio a sentir vergonha de dizer aos meus alunos (como os nossos professores nos diziam) que não há nada que preste em português. Durante os meus primeiros anos como professor da Universidade de Lisboa, dizia aos estudantes que não havia nenhuma tradução adequada em português da Odisseia e da Ilíada e que tinham de ler os poemas homéricos em francês ou em inglês. Depois comecei a irritar-me com esse discurso e decidi lançar mãos à obra e fazer eu próprio traduções desses poemas.

O que é que esta gramática tem de diferente em relação às outras que podem ser encontradas no mercado?

A principal diferença está, a meu ver, no ponto de vista a partir do qual está pensada e no horizonte que pretende transmitir. Não quero dar a conhecer o latim de uma maneira que o torne mofento e desinteressante. O meu livro pretende ser um argumento a favor do interesse intrínseco da língua latina. Depois, em termos mais concretos, há a diferença de a minha Gramática apresentar a morfologia de uma perspetiva histórica e não de uma perspetiva somente normativa. Acho que é mais interessante ensinar a morfologia do latim pelo prisma da história da língua latina do que apenas por meio de regras normativas. No caso da sintaxe, a minha opção foi a síntese. O que quis acima de tudo foi identificar os temas fulcrais da sintaxe latina, para constituir um elenco de competências básicas sem as quais ninguém consegue entender-se com um texto em latim. O problema, a meu ver, dos grandes tratados internacionais de sintaxe latina é que dão ao principiante a sensação de nunca encontrar qualquer agulha naquele gigantesco palheiro. Reduzir as 1.200 páginas da sintaxe de Kühner-Stegmann a 100 páginas na minha Gramática foi um exercício de síntese que me obrigou a decidir o que é absolutamente indispensável e a deixar de lado o secundário. Quem dominar bem as 100 páginas de sintaxe que proponho estará apto a passar ao próximo nível, que será aprofundar o que já aprendeu no meu livro num dos grandes tratados de sintaxe, sejam eles Kühner-Stegmann, Woodcock ou até Ernout-Thomas, que é uma epítome em francês de Kühner-Stegmann.

Além dos capítulos dedicados à morfologia e sintaxe, esta gramática inclui o “Vocabulário essencial da língua latina”, que aconselha que seja decorado. Qual é a vantagem de saber de cor esta longa lista de palavras?

Sem vocabulário ninguém domina uma língua, seja ela clássica ou moderna. Como professor há trinta anos de línguas clássicas, vejo a desvantagem enorme em que se colocam as pessoas que não se dão ao trabalho de construir uma base de dados lexical nas suas cabeças. Nada é mais desanimador do que ler um texto de Platão ou de Cícero consultando cada palavra, uma a uma, no dicionário. Mas muitas pessoas não sabem por onde começar na construção do seu léxico pessoal de grego e de latim. A lista de palavras que proponho é uma base, à qual as pessoas depois poderão ir acrescentando cada vez mais palavras. É preciso começar por qualquer lado, e o melhor é começar pelas palavras mais básicas.

O latim que se estuda nas aulas costuma ser o da época clássica. A antologia de textos desta gramática inclui excertos de obras de autores como Santo Agostinho e Beda, já do período medieval. Porque é que achou importante incluir uma seleção de textos de diferentes períodos?

Acho um absurdo ensinar latim a partir do pressuposto de que interessa somente o período compreendido entre o nascimento de Júlio César e morte de Augusto. É importante dar atenção ao latim da época republicana, por um lado, e, por outro, ao latim da Antiguidade Tardia. Já lá vai o tempo em que, no século XIX, se escrevia no prefácio de uma Gramática que seria “intolerável” apresentar exemplos posteriores a Suetónio. O que eu considero intolerável é pensar que o latim acaba com Suetónio, no século II d.C. Então Santo Agostinho, para dar só esse exemplo (séculos IV-V)? Ou a Vulgata? Um dos grandes interesses do latim é o facto de ser uma língua com tantos séculos de história escrita. Não é uma língua que se reduza a Cícero e Vergílio. Em Portugal, temos além do mais toda uma produção literária, historiográfica, filosófica e teológica feita por portugueses que escreveram em latim entre os séculos XVI e XVIII. O latim é uma competência fundamental para a história da cultura portuguesa.

Muitos alunos só têm possibilidade de estudar latim ou grego na faculdade. Isto se entrarem para o curso de Estudos Clássicos, porque a maioria das licenciaturas não possibilita o estudo destas duas línguas. Considera que o acesso às línguas clássicas devia ser mais facilitado?

Considero que o acesso às línguas clássicas, sobretudo no que toca ao latim, devia começar no ensino secundário, bem antes do 10.º ano. Diria que o momento ideal seria no 5.º ou 6.º ano de escolaridade. Começando bem cedo, os alunos teriam a possibilidade de aprender latim de forma lúdica, progressiva. Ensinar latim e grego a partir do zero na universidade numa licenciatura que só dura três anos parece-me uma solução muito problemática. Claro que essa é também a situação, hoje em dia, do francês e do alemão. Que competência numa língua adquire uma pessoa já adulta no espaço de três anos? Não digo que não haja alunos sobre-dotados que conseguem esse feito extraordinário, de chegaram ao fim de uma licenciatura de três anos com uma boa competência em latim ou em grego. Mas são a exceção.

De uma forma geral, os alunos não parecem mostrar interesse na aprendizagem do latim ou do grego. Acha que isso tem apenas a ver com o plano curricular ou considera que existem outras razões? O que é que falta fazer para que os alunos se interessem mais pela Cultura Clássica?

Não tenho essa perceção. Parece-me antes que essa possibilidade não lhes é dada na esmagadora maioria das escolas secundárias. Estou sempre a ouvir o mesmo discurso: “Queria estudar latim na escola, mas não havia”.

Que argumentos usaria para convencer um aluno a estudar latim? O comunicado de imprensa enviado pela Quetzal salienta que “o estudo do latim não é apenas um luxo de eruditos. É a matriz da nossa identidade, do conhecimento daquilo que somos, do que é a nossa cultura, das nossas origens”.

Sim, tudo isso faz sentido, mas não é por aí que se vai despertar o interesse de um adolescente. O principal argumento para aliciar jovens para o latim será mostrar-lhes o prazer que o latim dá enquanto proposta lúdica. Porque é uma língua que proporciona o prazer de um jogo altamente inteligente: é o xadrez das línguas. Bastam duas ou três aulas para um jovem perceber de imediato a outra mais-valia do latim, que é a de arrancar o véu ao português, por assim dizer, mostrando a lógica por trás da sua própria língua materna. Mas isso tem de acontecer naturalmente. Não serve de nada dizer “tens de aprender latim para melhorares o português” ou “tens de aprender latim para perceberes as origens da nossa cultura”. O argumento melhor é deixar que o prazer inerente ao latim atue. Por isso a maneira como se ensina latim a jovens é tão importante.

É licenciado em Estudos Clássicos, o que pressupõe a existência de um interesse na Cultura Clássica anterior à faculdade. Como é que se deu esse contacto e o que é que o levou a entrar para esse curso?

Fazer um curso baseado em línguas foi sempre a minha ideia, embora inicialmente eu tenha feito um 12.º ano com línguas modernas (inglês, francês e alemão). O meu plano era tirar uma licenciatura em paralelo com o estudo do piano, pois alimentei, até aos 20 anos, a veleidade de ser pianista. Mas quando tive de reconhecer que não tinha talento para ser pianista, achei que mais valia tirar uma licenciatura mesmo desafiante, que me preenchesse por inteiro, e por isso voltei a fazer o 11.º e 12.º anos, desta vez com latim e grego.

Quando estava na faculdade, gostava mais de grego ou de latim?

Gostava mais de grego porque, no 1.º e 2.º anos da faculdade, tive aulas muito boas de grego. Mas gostei suficientemente de latim para ter optado por seguir latim, e não grego, no mestrado. Na verdade gostava de ambas as línguas e ainda gosto das duas, embora o grego me seja animicamente mais necessário do que o latim. Acho que o grego tornou-se uma espécie de droga para mim. Imagino que ficaria doente se passasse muitos dias sem ler grego. Nem vou experimentar! Conto ler grego todos os dias até ao fim da minha vida.

O seus primeiros grandes trabalhos de tradução foram a Odisseia e a Ilíada. Quando é que começou o interesse por Homero?

Comecei a interessar-me pela Odisseia e pela Ilíada quando era criança, mas é evidente que são poemas que só entendi a sério em adulto. A ideia de os traduzir nasceu, como já disse, da impaciência de estar sempre a dizer aos estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa que não havia traduções boas em português. Decidi “tomar vergonha na cara”, como se diz no Brasil (o meu marido é brasileiro), e lançar mãos a essa tarefa.

Numa entrevista que deu em 2014, disse que cada vez mais se interessava pela Ilíada. No entanto, foi a Odisseia que revisitou primeiro. Publicou uma edição revista em 2018. Porquê?

A minha preferência por um dos dois poemas homéricos é muito oscilante. Acontece por fases. Há momentos da minha vida em que leio mais a Ilíada e outros em que leio mais a Odisseia. Continuo a achar que a Ilíada é o melhor dos dois poemas, ao mesmo tempo que não tenho dúvida de que a Odisseia é, dos dois, o mais interessante, não obstante as suas muitas imperfeições — que exponho impiedosamente nas notas à nova edição.

Tem planos de fazer uma nova tradução da Ilíada?

Uma nova tradução não faria qualquer sentido para mim. Acho que, em relação à Ilíada, já dei o meu melhor. Vai sair em maio uma nova edição da minha tradução da Ilíada, mas é a mesma tradução publicada em 2005, que se encontra esgotada há cerca de um ano.

E uma gramática de grego?

Sim, uma Nova Gramática do Grego é um projeto incontornável. Um bom dicionário grego-português de porte médio, cobrindo a literatura grega de Homero ao Novo Testamento, seria também um sonho que adoraria realizar.

Está a trabalhar no próximo volume da Bíblia. Como é que começou esta grande aventura?

Foi uma bola de neve. Começou com a ideia de traduzir e comentar o Evangelho de João, que é o texto em língua grega que mais amo. Depois pensei que faria mais sentido fazer um volume com os quatro evangelhos, a que se seguiu a ideia de fazer o Novo Testamento todo. Depois o Antigo não pôde ficar de fora, sobretudo porque a Septuaginta nunca tinha sido traduzida para português.

Já publicou quatro volumes, faltam dois. Olhando para trás, que balanço é que faz do projeto até agora?

Faço um balanço positivo em relação a tudo o que este trabalho me levou a aprender. É um trabalho que não considero perfeito nem definitivo — só se fosse um narcisista megalómano é que poderia fazer essa avaliação — mas estou convencido de que dei e estou a dar um contributo necessário para os estudos bíblicos no mundo lusófono (a minha tradução da Bíblia está também a ser publicada no Brasil). A meu ver, a Bíblia não pode estar só nas mãos das pessoas que a estudam e ensinam pelo prisma da religião; uma visão académica isenta, não-apologética, tem também o seu lugar. Se o trabalho que estou a fazer incentivar o desenvolvimento em Portugal do estudo crítico-histórico da Bíblia, já me darei por muito satisfeito.

No que diz respeito à Bíblia, em que é que tem estado a trabalhar? Tem-se deparado com alguma dificuldade em particular?

Neste momento estou a finalizar o trabalho nos livros sapienciais. A minha maior dificuldade é lidar com a própria extensão da Bíblia. Muitas vezes parece-me ser um trabalho sobre-humano que não vou ser capaz de fazer. Outras vezes ganho de novo coragem. Tenho desenvolvido estratégias interiores para responder a este grande desafio, mas não nego que por vezes me sinto derrotado. Também tenho consciência de que seria um louco, se, perante um trabalho desta envergadura, não passasse por momentos de dúvida e de desânimo.

A previsão inicial era de que o último volume sairia no início de 2019, o que não vai acontecer. Quando é que prevê ter os seis volumes publicados?

Não é possível prever. Estou focado agora em acabar os livros sapienciais e dedicar-me de seguida aos livros históricos. É um trabalho que levará o tempo que tiver de levar. Não existe uma tradução do Antigo Testamento arrancada a ferros: isso é de si mesmo uma impossibilidade. A tradução tem de respirar, porque o tradutor também precisa de respirar. Há momentos em que não dá sequer para traduzir: o melhor que consigo fazer quando sinto que as baterias ficaram completamente descarregadas é não entrar em pânico e fazer por respirar fundo.

O que é que esta gramática tem de diferente em relação às outras que podem ser encontradas no mercado?

A principal diferença está, a meu ver, no ponto de vista a partir do qual está pensada e no horizonte que pretende transmitir. Não quero dar a conhecer o latim de uma maneira que o torne mofento e desinteressante. O meu livro pretende ser um argumento a favor do interesse intrínseco da língua latina. Depois, em termos mais concretos, há a diferença de a minha Gramática apresentar a morfologia de uma perspetiva histórica e não de uma perspetiva somente normativa. Acho que é mais interessante ensinar a morfologia do latim pelo prisma da história da língua latina do que apenas por meio de regras normativas. No caso da sintaxe, a minha opção foi a síntese. O que quis acima de tudo foi identificar os temas fulcrais da sintaxe latina, para constituir um elenco de competências básicas sem as quais ninguém consegue entender-se com um texto em latim. O problema, a meu ver, dos grandes tratados internacionais de sintaxe latina é que dão ao principiante a sensação de nunca encontrar qualquer agulha naquele gigantesco palheiro. Reduzir as 1.200 páginas da sintaxe de Kühner-Stegmann a 100 páginas na minha Gramática foi um exercício de síntese que me obrigou a decidir o que é absolutamente indispensável e a deixar de lado o secundário. Quem dominar bem as 100 páginas de sintaxe que proponho estará apto a passar ao próximo nível, que será aprofundar o que já aprendeu no meu livro num dos grandes tratados de sintaxe, sejam eles Kühner-Stegmann, Woodcock ou até Ernout-Thomas, que é uma epítome em francês de Kühner-Stegmann.

Além dos capítulos dedicados à morfologia e sintaxe, esta gramática inclui o “Vocabulário essencial da língua latina”, que aconselha que seja decorado. Qual é a vantagem de saber de cor esta longa lista de palavras?

Sem vocabulário ninguém domina uma língua, seja ela clássica ou moderna. Como professor há trinta anos de línguas clássicas, vejo a desvantagem enorme em que se colocam as pessoas que não se dão ao trabalho de construir uma base de dados lexical nas suas cabeças. Nada é mais desanimador do que ler um texto de Platão ou de Cícero consultando cada palavra, uma a uma, no dicionário. Mas muitas pessoas não sabem por onde começar na construção do seu léxico pessoal de grego e de latim. A lista de palavras que proponho é uma base, à qual as pessoas depois poderão ir acrescentando cada vez mais palavras. É preciso começar por qualquer lado, e o melhor é começar pelas palavras mais básicas.

O latim que se estuda nas aulas costuma ser o da época clássica. A antologia de textos desta gramática inclui excertos de obras de autores como Santo Agostinho e Beda, já do período medieval. Porque é que achou importante incluir uma seleção de textos de diferentes períodos?

Acho um absurdo ensinar latim a partir do pressuposto de que interessa somente o período compreendido entre o nascimento de Júlio César e morte de Augusto. É importante dar atenção ao latim da época republicana, por um lado, e, por outro, ao latim da Antiguidade Tardia. Já lá vai o tempo em que, no século XIX, se escrevia no prefácio de uma Gramática que seria “intolerável” apresentar exemplos posteriores a Suetónio. O que eu considero intolerável é pensar que o latim acaba com Suetónio, no século II d.C. Então Santo Agostinho, para dar só esse exemplo (séculos IV-V)? Ou a Vulgata? Um dos grandes interesses do latim é o facto de ser uma língua com tantos séculos de história escrita. Não é uma língua que se reduza a Cícero e Vergílio. Em Portugal, temos além do mais toda uma produção literária, historiográfica, filosófica e teológica feita por portugueses que escreveram em latim entre os séculos XVI e XVIII. O latim é uma competência fundamental para a história da cultura portuguesa.

Muitos alunos só têm possibilidade de estudar latim ou grego na faculdade. Isto se entrarem para o curso de Estudos Clássicos, porque a maioria das licenciaturas não possibilita o estudo destas duas línguas. Considera que o acesso às línguas clássicas devia ser mais facilitado?

Considero que o acesso às línguas clássicas, sobretudo no que toca ao latim, devia começar no ensino secundário, bem antes do 10.º ano. Diria que o momento ideal seria no 5.º ou 6.º ano de escolaridade. Começando bem cedo, os alunos teriam a possibilidade de aprender latim de forma lúdica, progressiva. Ensinar latim e grego a partir do zero na universidade numa licenciatura que só dura três anos parece-me uma solução muito problemática. Claro que essa é também a situação, hoje em dia, do francês e do alemão. Que competência numa língua adquire uma pessoa já adulta no espaço de três anos? Não digo que não haja alunos sobre-dotados que conseguem esse feito extraordinário, de chegaram ao fim de uma licenciatura de três anos com uma boa competência em latim ou em grego. Mas são a exceção.

De uma forma geral, os alunos não parecem mostrar interesse na aprendizagem do latim ou do grego. Acha que isso tem apenas a ver com o plano curricular ou considera que existem outras razões? O que é que falta fazer para que os alunos se interessem mais pela Cultura Clássica?

Não tenho essa perceção. Parece-me antes que essa possibilidade não lhes é dada na esmagadora maioria das escolas secundárias. Estou sempre a ouvir o mesmo discurso: “Queria estudar latim na escola, mas não havia”.

Que argumentos usaria para convencer um aluno a estudar latim? O comunicado de imprensa enviado pela Quetzal salienta que “o estudo do latim não é apenas um luxo de eruditos. É a matriz da nossa identidade, do conhecimento daquilo que somos, do que é a nossa cultura, das nossas origens”.

Sim, tudo isso faz sentido, mas não é por aí que se vai despertar o interesse de um adolescente. O principal argumento para aliciar jovens para o latim será mostrar-lhes o prazer que o latim dá enquanto proposta lúdica. Porque é uma língua que proporciona o prazer de um jogo altamente inteligente: é o xadrez das línguas. Bastam duas ou três aulas para um jovem perceber de imediato a outra mais-valia do latim, que é a de arrancar o véu ao português, por assim dizer, mostrando a lógica por trás da sua própria língua materna. Mas isso tem de acontecer naturalmente. Não serve de nada dizer “tens de aprender latim para melhorares o português” ou “tens de aprender latim para perceberes as origens da nossa cultura”. O argumento melhor é deixar que o prazer inerente ao latim atue. Por isso a maneira como se ensina latim a jovens é tão importante.

É licenciado em Estudos Clássicos, o que pressupõe a existência de um interesse na Cultura Clássica anterior à faculdade. Como é que se deu esse contacto e o que é que o levou a entrar para esse curso?

Fazer um curso baseado em línguas foi sempre a minha ideia, embora inicialmente eu tenha feito um 12.º ano com línguas modernas (inglês, francês e alemão). O meu plano era tirar uma licenciatura em paralelo com o estudo do piano, pois alimentei, até aos 20 anos, a veleidade de ser pianista. Mas quando tive de reconhecer que não tinha talento para ser pianista, achei que mais valia tirar uma licenciatura mesmo desafiante, que me preenchesse por inteiro, e por isso voltei a fazer o 11.º e 12.º anos, desta vez com latim e grego.

Quando estava na faculdade, gostava mais de grego ou de latim?

Gostava mais de grego porque, no 1.º e 2.º anos da faculdade, tive aulas muito boas de grego. Mas gostei suficientemente de latim para ter optado por seguir latim, e não grego, no mestrado. Na verdade gostava de ambas as línguas e ainda gosto das duas, embora o grego me seja animicamente mais necessário do que o latim. Acho que o grego tornou-se uma espécie de droga para mim. Imagino que ficaria doente se passasse muitos dias sem ler grego. Nem vou experimentar! Conto ler grego todos os dias até ao fim da minha vida.

O seus primeiros grandes trabalhos de tradução foram a Odisseia e a Ilíada. Quando é que começou o interesse por Homero?

Comecei a interessar-me pela Odisseia e pela Ilíada quando era criança, mas é evidente que são poemas que só entendi a sério em adulto. A ideia de os traduzir nasceu, como já disse, da impaciência de estar sempre a dizer aos estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa que não havia traduções boas em português. Decidi “tomar vergonha na cara”, como se diz no Brasil (o meu marido é brasileiro), e lançar mãos a essa tarefa.

Numa entrevista que deu em 2014, disse que cada vez mais se interessava pela Ilíada. No entanto, foi a Odisseia que revisitou primeiro. Publicou uma edição revista em 2018. Porquê?

A minha preferência por um dos dois poemas homéricos é muito oscilante. Acontece por fases. Há momentos da minha vida em que leio mais a Ilíada e outros em que leio mais a Odisseia. Continuo a achar que a Ilíada é o melhor dos dois poemas, ao mesmo tempo que não tenho dúvida de que a Odisseia é, dos dois, o mais interessante, não obstante as suas muitas imperfeições — que exponho impiedosamente nas notas à nova edição.

Tem planos de fazer uma nova tradução da Ilíada?

Uma nova tradução não faria qualquer sentido para mim. Acho que, em relação à Ilíada, já dei o meu melhor. Vai sair em maio uma nova edição da minha tradução da Ilíada, mas é a mesma tradução publicada em 2005, que se encontra esgotada há cerca de um ano.

E uma gramática de grego?

Sim, uma Nova Gramática do Grego é um projeto incontornável. Um bom dicionário grego-português de porte médio, cobrindo a literatura grega de Homero ao Novo Testamento, seria também um sonho que adoraria realizar.

Está a trabalhar no próximo volume da Bíblia. Como é que começou esta grande aventura?

Foi uma bola de neve. Começou com a ideia de traduzir e comentar o Evangelho de João, que é o texto em língua grega que mais amo. Depois pensei que faria mais sentido fazer um volume com os quatro evangelhos, a que se seguiu a ideia de fazer o Novo Testamento todo. Depois o Antigo não pôde ficar de fora, sobretudo porque a Septuaginta nunca tinha sido traduzida para português.

Já publicou quatro volumes, faltam dois. Olhando para trás, que balanço é que faz do projeto até agora?

Faço um balanço positivo em relação a tudo o que este trabalho me levou a aprender. É um trabalho que não considero perfeito nem definitivo — só se fosse um narcisista megalómano é que poderia fazer essa avaliação — mas estou convencido de que dei e estou a dar um contributo necessário para os estudos bíblicos no mundo lusófono (a minha tradução da Bíblia está também a ser publicada no Brasil). A meu ver, a Bíblia não pode estar só nas mãos das pessoas que a estudam e ensinam pelo prisma da religião; uma visão académica isenta, não-apologética, tem também o seu lugar. Se o trabalho que estou a fazer incentivar o desenvolvimento em Portugal do estudo crítico-histórico da Bíblia, já me darei por muito satisfeito.

No que diz respeito à Bíblia, em que é que tem estado a trabalhar? Tem-se deparado com alguma dificuldade em particular?

Neste momento estou a finalizar o trabalho nos livros sapienciais. A minha maior dificuldade é lidar com a própria extensão da Bíblia. Muitas vezes parece-me ser um trabalho sobre-humano que não vou ser capaz de fazer. Outras vezes ganho de novo coragem. Tenho desenvolvido estratégias interiores para responder a este grande desafio, mas não nego que por vezes me sinto derrotado. Também tenho consciência de que seria um louco, se, perante um trabalho desta envergadura, não passasse por momentos de dúvida e de desânimo.

A previsão inicial era de que o último volume sairia no início de 2019, o que não vai acontecer. Quando é que prevê ter os seis volumes publicados?

Não é possível prever. Estou focado agora em acabar os livros sapienciais e dedicar-me de seguida aos livros históricos. É um trabalho que levará o tempo que tiver de levar. Não existe uma tradução do Antigo Testamento arrancada a ferros: isso é de si mesmo uma impossibilidade. A tradução tem de respirar, porque o tradutor também precisa de respirar. Há momentos em que não dá sequer para traduzir: o melhor que consigo fazer quando sinto que as baterias ficaram completamente descarregadas é não entrar em pânico e fazer por respirar fundo.

Fonte

Trabalho da jornalista Rita Cipriano, preenchido na maior parte por uma entrevista ao professor universitário, classicista, escritor e tradutor Frederico Lourenço e publicado no jornal digital Observador em 6/04/2019.

Sobre os Autores

Frederico Lourenço (Lisboa, 1963) doutorado pela Universidade de Lisboa, é especialista em Estudos Clássicos, além de ensaísta, tradutor e escritor. Traduziu a Ilíada e a Odisseia (Prémio D. Diniz da Fundação Casa de Mateus e Grande Prémio de Tradução APT/PEN), bem como a poesia da Grécia antiga, que selecionou para um volume intitulado Poesia Grega de Álcman a Teócrito.  Entre o seus livros de ensaios, contam-se Grécia Revisitada (2009), Estética da Dança Clássica (2014) e Livro Aberto: Leituras da Bíblia (2015). No domínio do relato de ficção ou autobiográfico, é autor de Pode Um Desejo Imenso, Amar não Acaba, À Beira das Estrelas e A Formosa Pintura do Mundo.

Jornalista no jornal digital Observador.