Diversidades // Diversidade linguística na CPLP
«Reino de Marrocos» ou «do Marrocos»?
Registos comparados de Portugal e do Brasil
"Nos acordos de Abraão de 2020, nós já temos uma série de países que fecharam os acordos nessa altura. um deles ainda não está em vigor pelas complicações da guerra civil própria, que é o Sudão, mas se nós pensarmos nos Emirados Árabes Unidos, no Bahrain e no Marrocos, esses estão em vigor [...].»
"Guerra e Paz", NOW, 25/05/2026, 23h37
Muitos nomes de países usam-se com artigo definido, enquanto outros formam um grupo mais restrito que o dispensam. Contudo, em anos recentes, mesmo estes correm o risco de ter companhia que pode ser discutível... em Portugal.
No canal noticioso NOW, pelas 23:37 de 25/05/2026, puderam os telespetadores ouvir falar de um acordo em vigor não «em Marrocos», mas «no Marrocos». O uso do artigo definido com o nome de um país quase vizinho de Portugal é provavelmente estranho, pelo menos, entre falantes mais idosos.
Na verdade, o nome geopolítico em causa é dos poucos do género masculino que aparece sem artigo definido, pelo menos, no português europeu, e, portanto, o que se espera é «em Marrocos», sem artigo definido. Como Marrocos, temos Chipre, Moçambique, Portugal, São Marino, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, ao contrário da larga maioria que o ostenta: «o Senegal», «o Níger», «o Egito», «o Líbano», «o Iraque», «o Irão», «o Paquistão», «o Vietname», «o Japão», «o Canadá», «o Peru», «o Chile», «o Brasil».
Não obstante a censura que pode recair sobre uso em causa, os mais atentos hão de saber que a lexicografia aceita geralmente o uso do artigo definido com este nome de país, por exemplo, quando se define o gentílico marroquino (sublinhado meu):
(1) «relativo ao Reino do Marrocos (Noroeste da África) ou o que é seu natural ou habitante» (Dicionário Houaiss)
(2) «Relativo ou pertencente ao Marrocos (África) e ao dialeto árabe falado nesse país.
A própria Academia Brasileira de Letras regista o artigo definido no exemplo associado à entrada de Marrocos no Dicionário de Topónimos e Gentílicos:
(3) «Marrocos. top. "país da África"; Reino do Marrocos (oficial); cf. marroquino»
A par destes registos, outras fontes existem que não apresentam o artigo definido:
(4) «de, ou pertencente ou relativo a Marrocos.» (Novo Aurélio Século XXI)
E há o caso do Dicionário UNESP do Português Contemporâneo (2004), cujas definições de marroquino exibem os dois usos:
(5) «que é natural ou habitante de Marrocos»
(6) «do Marrocos»
Voltando à ocorrência que é mote destas linhas, aventa-se também a hipótese de o comentador acima citado ter sido influenciado pelo francês «le Maroc», que tem nesta língua artigo definido, como, aliás, sucede com Portugal em «le Portugal». Mesmo assim, sem arriscar que a atestação brasileira é resultado de galicismo, a verdade é que, no Brasil, Marrocos tem atualmente dois usos.
Em suma, no português lusitano, é discutível empregar «o Marrocos», mas, no português do Brasil, não dá este uso motivo para qualquer correção.
