CPLP pede rapidez para unificação da ortografia portuguesa - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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CPLP pede rapidez para unificação da ortografia portuguesa
CPLP pede rapidez para unificação da ortografia portuguesa

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Lisboa, 25 Set (Lusa) — A Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) defendeu nessa terça-feira a existência de uma única forma de escrever português e deixou implícitas críticas às dificuldades de implementação do acordo ortográfico, assinado pelos estados-membros em 1990.

Em entrevista à Agência Lusa, o português José Tadeu Soares, secretário-executivo adjunto da CPLP, não quis comentar a "parte política" da questão em Portugal, país que ainda não ratificou o acordo.

Nesse sentido, alegou que todas as perguntas devem ser feitas ao poder político, defendendo que, do ponto de vista da CPLP, há o desejo de "uma única forma de escrever português" e lembrando que apenas três países — Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe — ratificaram o documento.

"Só assim se facilita a promoção, de uma forma sistemática, da língua portuguesa no exterior, que é um dos nossos três pilares. Desejamos que, o mais rapidamente possível, os sete Estados da CPLP, mais Timor Leste, que não estava presente quando se chegou a um consenso, ratifiquem o acordo", afirmou.

Embaixador de carreira, Tadeu Soares disse que o "único argumento oficial" que tem das autoridades portuguesas em relação à não ratificação do acordo tem a ver com os "elevados custos" da sua implementação no país.

"O Brasil, ao ratificar o documento, permitiu a entrada em vigor do acordo. As autoridades portuguesas dizem que a entrada em vigor do acordo tem custos elevados, como a elaboração de manuais, etc, e que isso vai demorar", afirmou.

Insistindo freqüentemente na "separação das águas", entre o conteúdo e a parte política do acordo, Tadeu Soares defendeu que existe, sobretudo em Portugal, "uma grande mistura entre os dois".

"As pessoas escrevem muito para a CPLP e para os jornais sobre dois aspectos do acordo ortográfico que estão muito misturados. Um é o conteúdo do acordo, as regras de como se deve escrever Português. Se cor-de-rosa deve ou não levar hífens, se o trema deve ser cortado no Brasil, se a palavra facto vai escrever-se sem c. Isso é o conteúdo".

"Não sou gramático e duvido que a maioria das pessoas tenha conhecimentos suficientes para dar uma opinião abalizada. Nesse aspecto não posso dar opinião. Mas foram professores de gramática e professores de língua portuguesa dos sete países que se reuniram para chegar a este acordo, assinado por todos", enfatizou.

"Se acharem que está ruim, reúnam-se outra vez e mudem. Mas muita gente embaralha as coisas com a parte política, que é completamente diferente", reforçou.

No seu entender, o que existe é que um dos principais idiomas do mundo, o português, tem "duas versões legais e válidas de forma escrita".

"Temos, assim, o português de Portugal, com uma grafia, e o português do Brasil, que é igualmente válido e tem o mesmo valor internacional. Na perspectiva da CPLP, e de quem se preocupa com a unidade da língua e com a projeção da língua no mundo, isso é um erro que causa problemas", justificou.

Tal situação, sustentou, só poderá ser resolvida com o acordo ortográfico — assinado pelos sete Estados e ratificado por três — e caso se crie uma regra em que o português comece a ter legalmente uma única forma de se escrever no mundo inteiro.

"O que tem sido difícil é a entrada em vigor do acordo. Porque isso implica, num país mais ou menos sério, alterações da gramática e na forma de escrever nos jornais", disse.

Até 1911, lembrou, o português era escrito da mesma forma no mundo inteiro. E foi nesse ano que o Parlamento luso aprovou numa reforma da ortografia portuguesa.

"Mas esqueceram-se de um pequeno detalhe: que já havia um país, maior que Portugal, que também falava português. Fizeram uma reforma ortográfica em Portugal e esqueceram-se de avisar o Brasil", gracejou.

"Desde então, houve diversas tentativas para se chegar a um consenso. Chegava-se a um consenso sobre os termos e sobre o conteúdo, mas não se chegava a um político. Em 1990, ultrapassou-se essa fase", insistiu.

Agora, defendeu, cada país tem de aplicar internamente as normas do acordo e, para aplicá-las, é preciso introduzi-las nas escolas, o que quer dizer que só daqui a 20, 30 ou 40 anos as crianças escreverão todas da mesma maneira.

Fonte

in Lusa Brasil, 25 de Setembro de 2007