Contra o "sotaque único" - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Contra o "sotaque único"

(...)  O meu amigo Vital Moreira escreveu, para o"Público", uma estranha crónica [disponível aqui, também], na qual, com mão e ironia por igual pesadas, troça do sotaque lisboeta, a que chama inapropriadamente "lisboetês", no que seria, porventura, "lisboês." O Vital sabe que os registos fonológicos ou fonéticos obedecem à natureza constitutiva de cada território idiomático. Qual a razão do dislate intempestivo? "A minha pátria é a minha língua portuguesa", disse-o Mia Couto, de maneira exemplar, na revista "Pública", último domingo. O português falado (admito, até, que "mal falado") em Lisboa é-o assim tão, e tanto, quanto o de cada ilha dos Açores; ou do Alentejo, ou da meseta transmontana; ou do Bulhão, ou de Moçambique, ou de Timor Loro Sae, ou do Brasil, ou de sei lá quanto quê!? Menos em Coimbra, claro!, aí, a fala fia fino, feliz e fluída. Vital Moreira é dos homens mais lúcidos que conheço, e a sua curiosidade activa está a par da sua integridade moral e cultural. Eis porque o texto do meu velho amigo adquire uma espessura surpreendentemente "racista." Então, ó Vital, querias a globalização da fala?, o sotaque único? Deixa-nos comer as vogais,trocar os "conjuntos" de consoantes; deixa-nos dizer assim como assim falamos. A riqueza do idioma consiste nas suas variantes sintácticas e nos registos fonéticos. E as línguas são organismos vivos, que se remancham e remanejam a eles mesmos; que podem provir do norte ou do sul, que possuem uma qualidade miscível, de miscigenação, que deixam de ser pertença de, para se constituírem como leitos de nações. Depois,velho amigo, mais vale falar lisboês do que escrever protugueiro com embaraços nas preposições, tropeços nos pronomes e perplexidade no uso das conjunções subordinadas. Sei que sabes que eu sei que tu sabes. E, sans rancune (expressão idiomática lisboeta), abraça-te o teu BB, irremediavelmente de Lisboa, com o cerrado sotaque do bairro da Ajuda.

 

[Cf. os textos em contraponto desta controvérsia, Crónica do Falar LisboetêsCrónica do Falar Lisboetês (Bis) e O Lisboetês, o Coimbrês e Outros Sotaques (I)]

Fonte

Publicado no "Diário Económico" de 7 de Janeiro de 2000, como apostila (anotação à margem) da crónica que este escritor e jornalista português escreve à sexta-feira.

Sobre o autor

Baptista-Bastos (1934-2017), jornalista e escritor português, era considerado um dos maiores prosadores contemporâneos do país. Trabalhou em O Século, onde começou o seu percurso profissional, O Século Ilustrado, República, Europeu, O Diário; no vespertino Diário Popular, marcou, durante vinte e três anos (1965-1988), o jornalismo da época «com um estilo inconfundível» (Adelino Gomes). Participou também em programas de televisão: na RTP, assinou textos de documentários para Fernando Lopes (Cidade das Sete Colinas, Os Namorados de Lisboa, Este Século em que Vivemos); na SIC, teve o programa Conversas Secretas. Na rádio, foi cronista na TSF, Antena Um e Rádio Comercial. Traduzido em várias línguas, é autor de uma obra donde sobressaem: O Cinema na Polémica do Tempo (1959), O Filme e o Realismo (1962), no ensaio; e, na ficção, O Secreto Adeus (1963), O Passo da Serpente (1965), O Cão Velho a Tinta da China (1974), Viagem de um pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura (1981), A Colina de Cristal (1987) – Prémio Pen Clube e Prémio Cidade de Lisboa –, Um Homem Parado no Inverno (1991), O Cavalo a Tinta da China (1995), e No Interior da Tua Ausência (2002). Vencedor do Prémio de Crónica João Carreira Bom, relativo ao ano de 2005. Dele foi a autoria da famosa frase «Onde é que você estava no 25 de Abril?», mote das entrevistas que conduziu no programa Conversas Secretas, entre 1996 e 1998, no canal de televisão SIC.