Um projeto para fazer ruturas - Acordo Ortográfico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Um projeto para fazer ruturas

A adoção das novas regras ortográficas promete criar ruturas e levar a que muitas pessoas deixem de saber qual a forma correta das palavras que escrevem ou leem.

Este texto parece-lhe cheio de erros? Actualmente, sim; mas, em 2018, quando o Acordo Ortográfico entrar em vigor, é assim que vamos escrever. Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe já ratificaram o projeto e em breve o Governo português vai ter de entrar em ação e discuti-lo em Conselho de Ministros.

Em Novembro, o ministro [portugués] dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, tinha prometido que o Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico seria ratificado até ao fim deste ano. Na passada quinta-feira, véspera do último Conselho de Ministros do ano, o Governo [portugués] anunciou que a aprovação do Acordo «foi adiada para 2008», sem precisar nova data.

As objeções à assunção de uma nova grafia são muitas. Mas também há quem desdramatize esta espécie de batismo da língua: «A ortografia é uma coisa menor. As pessoas esquecem-se de que   ainda não há muito tempo se os advérbios de modo terminados em ´-mente´ levavam acento grave´ e, um pouco antes, escrevia-se “farmácia’  com ‘ph’ e sem acento» – comenta José Mário Costa, responsável do “site” Ciberdúvidas Língua Portuguesa. Na sua opinião, o Acordo vai permitir uniformizar a língua e acabar com as dúvidas sobre que grafia usar em organismos internacionais como a ONU ou a UNESCO. «O português não é só de Portugal. É uma língua que pertence, hoje, a oito países», sublinha.

No entanto, a grande vantagem de colocar os PALOP sob o mesmo teto, apontada pelos defensores do Acordo, poderá não ser tão efetiva como parece. «Basta lembrar que, até agora, de todos os países africanos, só São Tomé e Príncipe e Cabo Verde declararam que vão aderir», adverte Ivo Castro. Para o professor da Faculdade de Letras de Lisboa, «Portugal só deve aderir à nova ortografia se for acompanhado por todos os países lusófonos». Em Angola, por exemplo, isso ainda não está garantido.

O facto de o projeto de novas regras determinar que as consoantes mudas desaparecem também coloca problemas. Um deles é o ‘h’ – uma letra muda em português, que no Brasil já desapareceu da palavra ‘úmido’ e que assim continuará em Terras de Vera Cruz, mas que não sofrerá mudanças por cá. Ou seja, os portugueses vão continuar a escrever ‘húmido’, ‘homem’ e ‘haver’ [ver “O que (não) muda?”, mais abaixo].

A forma de pronunciar as palavras também vai fazer com que a escrita seja diferente dos dois lados do Atlântico. É que as pronúncias diferentes levam a que em Portugal se continue a escrever ‘facto’ e no Brasil ‘fato’. Assim como começaremos a escrever ‘receção’ e os brasileiros continuarão a escrever ‘recepção’.

«Mas também se colocam questões com pronúncias dentro do mesmo país», salienta o linguista, que lembra que «há quem diga ‘sumptuoso’ e quem diga ‘sumtuoso’. Ambas as formas estão correctas», exemplifica Ivo Castro, que até vê vantagens nesta duplicidade de grafias. «É uma lição de tolerância cívica ensinar às crianças que duas palavras podem ser escritas de forma diferente e ambas estarem correctas», defende.

Escolas sem mudanças para já

Contudo, o Ministério da Educação garante que, para já, as novas normas não vão entrar nos programas das escolas. «Ainda há muito tempo para isso», afirma o assessor de Imprensa da ministra Maria de Lurdes Rodrigues, lembrando que foi para que o processo fosse gradual que os Ministérios da Cultura e da Educação pediram uma moratória de 10 anos para a entrada em vigor do acordo. Até lá, a questão é deixada «ao bom senso dos professores», que poderão fazer ou não uma referência às mudanças no futuro.

Fonte oficial da Cultura confirma que «a ideia é dar tempo à sociedade para se preparar para a mudança», mas não revela se o Governo já encomendou à Academia das Ciências e das Letras um dicionário com as novas regras de escrita.

A moratória não impede, porém, que algumas editoras comecem já a publicar livros que sigam a nova norma. «É possível que isso aconteça», admite Ivo Castro, que considera mais provável que «estes 10 anos sejam usados para esgotar os “stocks”» dos livreiros.

Para quem trabalha todos os dias com as palavras, escrever de uma forma diferente pode ser uma dor de cabeça. Carlos Valentim, presidente da Pluridioma – uma das maiores empresas de tradução e legendagem em Portugal – antevê problemas. «Vai haver alguma descaracterização da língua», lamenta, recordando que «entre o inglês que se fala em Inglaterra e o que se fala nos Estados Unidos as diferenças são imensas e isso nunca causou problemas».

Para o tradutor, por trás do acordo «estão sobretudo interesses comerciais», já que uma uniformização da língua pode ajudar a vender mais livros no espaço da lusofonia. Carlos Valentim acha, porém, que no mercado das traduções não vai sentir a concorrência dos brasileiros. «Apesar de gostarem das novelas, os portugueses são muito resistentes ao português do Brasil», assegura, lembrando o fracasso dos canais de TV por cabo, que tentaram passar em Portugal programas dobrados no Brasil.

Jornais ponderam transição gradual

Na Alemanha, os jornais desempenharam um papel fundamental na discussão de uma reforma ortográfica, em 2004. O “Frankfurter Algemeine” e a revista “Der Spiegel” recusaram aceitar as novas normas e iniciaram uma polémica que abalou a força da reforma e levou a que mais alemães a contestassem.

Em Portugal, José Manuel Fernandes, diretor do “Público”, acredita que «faria sentido uma rebelião, se sentir que há uma violação do bom senso». Defende, no entanto, que a contestação nunca poderia vir de um jornal isolado: «Se fosse só um, transformava-se num D. Quixote.»

Pedro Tadeu, diretor do “24 Horas,” deixa claro que não está contra o Acordo Ortográfico, mas não põe de parte a hipótese de «fazer uma adaptação gradual», à semelhança do que aconteceu com o euro (quando «o jornal continuou a usar ‘contos’ durante muito tempo para que as pessoas percebessem»). Isto, apesar de achar que a mudança deve ser automática «no caso dos meios de comunicação ligados ao Estado, como a RTP ou a Lusa».

Octávio Ribeiro, do “Correio da Manhã”, concorda. «Se sentirmos que a mudança vai dificultar a comunicação, não aplicamos as novas regras ou aplicamo-las de forma gradual», explica o diretor daquele diário.

    João Marcelino, diretor do “Diário de Notícias”, está convicto de que «não faria sentido um jornal não aplicar o Acordo». Marcelino defende que «a língua tem de se modernizar», mas reconhece que as alterações na ortografia «nunca serão pacíficas».

 

O que (não) muda?

1) CONSOANTES MUDAS

É uma das  medidas mais contestadas pelos opositores do Acordo. Com as novas regras, em vez de ‘tecto’, ‘correcto’ ou ‘baptismo’, vai passar-se a escrever ‘teto’, ‘correto’ ou ‘batismo’. De fora da mudança vão ficar os nomes próprios (como ‘Baptista?) e as palavras com ‘h’ mudo. Ou seja, ‘haver’, ‘homem’ e ‘hotel’ continuam a escrever-se da mesma forma. Outra excepção é a palavra ‘facto’. Uma vez que o ‘c’ se lê, mantém-se a mesma grafia.

2) ACENTO CIRCUNFLEXO

O Acordo Ortográfico prevê que, em certas formas verbais, como ‘lêem’, o acento circunflexo seja eliminado em Portugal. Mas no Brasil também vai haver alterações. Os brasileiros vão deixar de usar acentos circunflexos em ‘vôo’ e acentos agudos em palavras como ‘idéia’.

3) TREMA

É a principal cedência brasileira: o trema (usado em palavras como ‘freqüente’, ‘eloqüente’ e ‘seqeüestro’) desaparece.

4) K, W e Y

Com o Acordo Ortográfico, o alfabeto oficial português ganha três novas letras que, na verdade, já são usadas  há muitos anos, sobretudo nos PALOP (onde fazem parte, por exemplo, da grafia do nome das cidades).

Fonte

artigo publicado no semanário Sol de 29 de Dezembro de 2007

Sobre a autora

Margarida Davim nasceu no Porto em 1979. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Começou no jornalismo em estágios na TVI e na Rádio Renascença. Está no semanário Sol, desde a sua fundação.