A brigada do asterisco - Acordo Ortográfico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A brigada do asterisco
A brigada do asterisco

Comentário do embaixador português em Paris à suspensão da aplicação do Acordo Ortográfico no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, ordenada pelo seu novo presidente, Vasco Graça Moura. No blogue do autor, duas ou três coisas.

 

 

Desde 1 de janeiro, os serviços públicos [portugueses] estão, no cumprimento da lei, obrigados a utilizar o novo Acordo Ortográfico, em toda a sua documentação.

Para o vulgar cidadão, o uso ou não do Acordo é naturalmente facultativo, como se nota, por exemplo, na significativa "brigada do asterisco", composta por colunistas que esclarecem, em orgulhosos pés-de-página, nos jornais em que debitam doutrina, a sua inquebrantável fidelidade à escrita do "tempo da outra senhora". Estão no seu pleníssimo direito, como o estava um velho familiar meu, que sempre dizia que ia à "pharmácia com 'pêagá' ", seguindo o "acordo ortográphico" do seu tempo de infância.

[Sexta-feira, dia 3/01/2012] ficou-se a saber que o novo diretor do Centro Cultural de Belém mandou desinstalar os corretores ortográficos existentes nos computadores e determinou o regresso à vetusta ortografia. Uma coisa é, desde já, mais do que certa: com esta decisão, aliás plenamente coerente com o que sempre defendeu, Vasco Graça Moura passou a ter, como turiferários da sua nomeação, todos quantos militam contra o Acordo, como se observa nas imensas loas que já está a receber, na blogosfera e na imprensa. Além de coerente, Vasco Graça Moura provou, uma vez mais, ser hábil, inteligente e destemido.

Teremos que aguardar as cenas dos próximos capítulos para perceber se o Acordo Ortográfico está mesmo em vigor ou se, afinal, subsiste por aí uma "região autónoma" impune, espécie de aldeia de Astérix que resiste à "ditadura" da lei democrática, escudada num preciosismo interpretativo do estatuto da instituição. Para sermos mais claros, vamos ter oportunidade de observar se a aplicação do Acordo Ortográfico, na área oficial, é, afinal, "à vontade do freguês", isto é, sujeita a uma singular interpretação do Direito Internacional "à moda dos Jerónimos", o que deixaria em alguma dificuldade a própria autoridade do Estado. Seria, aliás, o cúmulo da ironia se o "novo" CCB viesse, por esta via, a transformar-se na fortaleza do "regresso ao passado" ortográfico, uma espécie de sede informal da "brigada do asterisco" e outros protestantes correlativos, reunidos em eventos contestatários, perante o olhar embaraçado das autoridades e impotência do contribuinte que alimenta a instituição.

Valha-nos a certeza de que, com tudo isto, Portugal continua a provar que é um país muito patusco.

Fonte

Texto colocado pelo autor, no seu blogue duas ou três coisas, no dia 3 de fevereiro de 2012

Sobre o autor

Francisco Seixas da Costa (Vila Real, 1948) é um diplomata português. Dirige o Centro Norte-Sul do Conselho da Europa desde 2013. Entre 1995 e 2001 foi Secretário de Estado dos Assuntos Europeus e, entre 2001 e 2002, foi embaixador representante junto das Nações Unidas. Entre 2005 e 2013, foi embaixador de Portugal no Brasil e em França. A partir de 2012, passou a assumir funções como embaixador representante junto da UNESCO e junto da União Latina.