Antologia // Portugal Ensinem os poetas aos meninos Acontece quase sempre que, tendo adquirido nas aulas e liceus, nas academias e escolas superiores, mui avultados conhecimentos das línguas estranhas, antigas e modernas, achamo-nos por extremo pobres dos conhecimentos da nossa, que falamos só por a ouvir falar, e talvez com os erros vulgares a que não atendemos, ou que porventura defendemos só porque os bebemos com o leite, e ninguém deles nos advertiu. José Inácio Roquete · 12 de novembro de 1998 · 4K
Controvérsias Em defesa das regras a) Não há língua/linguagem sem regras. Não raro, quem ensina tem de mencionar as regras, para melhor e mais fácil aprendizagem. b) Dei preferência ao r a que chamam «érre rolado», por ser o normal no centro e no norte do país. O outro, o velar, é característico apenas da região de Lisboa. Mesmo aqui, muitos não o pronunciam como velar. A maior parte dos portugueses pronunciam o r rolado. Note-se a maior densidade da população no centro e Norte do que no... José Neves Henriques (1916-2008) · 6 de novembro de 1998 · 2K
Controvérsias Crítica das regras As V. explicações muitas vezes têm um suporte legal(citam regras, números, etc). Ultimamente tivemos uma intervenção dum tradutor de Bruxelas acerca da pronúncia do R. Eu, aliás, tinha ficado muito surpreendido pela V. resposta (aquela que engendrou a mencionada intervenção) que aconselhava a pronunciar o R não velar. Acho que mesmo em Coimbra, embora se use com muito mais frequência esse R não tenho a certeza se a grande maioria das pessoas faz isso. (Eu aconselhava o contrário, isto é o uso do R vel... Ricardo Kurylski · 6 de novembro de 1998 · 4K
Antologia // Portugal A sombra das palavras Coimbra, 7 de Julho. As palavras renascem. Folhas de clorofila humana, Brotam, crescem, Murcham, desaparecem, Mas renascem. Que frescura teria a caravana, A caminho da morte ou do nirvana, Se os poetas cantassem! Coimbra, 14 de Julho— Chegou meu pai. Mandei-o vir espairecer. Lépido e seco, com os seus oitenta e tal, desembarcou na estação com os olhos azuis ávidos... Miguel Torga · 6 de novembro de 1998 · 5K
Diversidades Outra pronúncia A INSISTÊNCIA de um certo humor televisivo lisboeta na exploração das particularidades fonéticas do modo de falar do Porto é eficaz como caricatura, mas tem o inconveniente de apresentar uma visão redutora de um fenómeno extensível a todo o País, e não exclusivo de uma dada região. O facto de ser o Porto a fonte inspiradora da graça a partir dos sons das palavras poderia ter várias explicações de raízes sociológicas, logo a começar pela natural rivalidade entre os dois principais centros urba... Valdemar Cruz · 5 de novembro de 1998 · 10K
Antologia // Portugal As palavras Léxico «A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.» José Saramago (1922 — 2010) publicou esta crónica dos seus tempos de jornalista no vespertino A Capital, em livro lançado, em 1971, sob a chancela da Editorial Arcádia. José Saramago · 29 de outubro de 1998 · 13K
Diversidades Uma questão de gramática Imaginei, até há não muito tempo, que só o fundamentalismo de certos leitores podia fazer dos erros gramaticais na Imprensa um verdadeiro drama, senão uma questão de Estado. Semanas e semanas a fio, recebi cartas a denunciar as torturas a que é sujeita a língua portuguesa e não comentei. Apontaram-me erros de palmatória que aparecem diariamente e fiz por esquecer. Chegaram até a perguntar-me quais as habilitações mínimas para se escrever nos jornais e, naturalmente, fingi que não dava ... Diogo Pires Aurélio · 26 de outubro de 1998 · 6K
Antologia // Portugal A linguagem e o povo Esta nossa língua portuguesa está a reclamar os seus panegiristas, galhardos paladinos que a defendam e enalteçam, de tal maneira deve andar envergonhada do desprezo com que tantos a maltratam, e bem saudosa do vivo amor que tantos lhe sagraram. O autor da «Côrte na Aldeia» já clamava com mágoa, quando tecia encómios à sua amada língua: «Para que diga tudo, só um mal tem, e é que, pelo pouco que lhe querem seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedintes.» Que faria se ele a... Júlio Brandão · 22 de outubro de 1998 · 5K
Diversidades Saramago: saber renascer Fiquei genuinamente satisfeito pela atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago. Por ele e pela língua portuguesa. Por ele: embora o personagem não me seja inteiramente simpático, e tenha detestado e combatido a sua passagem pela direcção do Diário de Notícias, confesso que há aspectos na vida dele que me suscitam um profundo reconhecimento. Desde logo pela sua afirmação cultural individual: José Saramago nada deve ao sistema escolar português selectivo, elitista e abundan... José Medeiros Ferreira · 16 de outubro de 1998 · 6K
Pelourinho Mãozinha de anglófilo? Estamos, ainda (em Portugal), no rescaldo da atribuição do Prémio Nobel de Literatura a José Saramago. Natural, bonito, obrigatório mesmo para toda uma comunidade que viu finalmente chegada a hora de um escritor lusófono. Nada natural, nem bonito e perfeitamente dispensável é que, numa dessas celebrações (...) José Mário Costa · 16 de outubro de 1998 · 4K