Controvérsias «O candidato passei a ser eu» Já uma vez, a propósito de uma outra construção utilizada por Manuel Alegre, tive a oportunidade de escrever que ela estava correcta, tal como esta. Efectivamente, deverá dizer-se «O candidato passei a ser eu» (= «Eu passei a ser o candidato»), «Os candidatos passámos a ser nós» (= «Nós passámos a ser os candidatos»), «Quem passou a ser candidato fui eu», etc. Maria Regina Rocha · 5 de dezembro de 2005 · 1K
Pelourinho "/Téni/"?! Ténis é um exemplo de palavra que surge por extensão de um determinado conceito. Do desporto (o ténis) e dos sapatos próprios para o praticar (sapatos de ténis), a palavra estendeu-se aos sapatos que servem para praticar desporto em geral, a que normalmente chamamos "ténis". Portanto, quando dizemos «tenho uns ténis novos», no fundo estamos a omitir uma parte da expressão «tenho uns (sapatos de) ténis novos». O mesmo acon... Maria João Matos · 25 de novembro de 2005 · 6K
Antologia // Portugal Cinto que não sinto * Alguns anos atrás, em Campolide, Lisboa, onde moro, deparei-me com um homem de certa idade, a coxear e a tentar driblar a chuva e a ventania. Como no poema de Fernando Pessoa, eu iria adiante, ele passaria também no sentido contrário, e nunca haveria um registo do transeunte anónimo que enfrentava a sua circunstância, ou seja, um quase fim de vida a arrastar-se dolorosamente pela rua. Mas não foi assim, porque assim não quiseram os fados da história. Ele, ao passar, disse-me num tom que adivi... José Alberto Braga · 23 de novembro de 2005 · 5K
Pelourinho Mais atenção às palavras «Palavra dada, escritura assinada», «a resposta branda, a ira quebranta» são dois exemplos de ditados populares que revelam a força dos palavras. A sabedoria popular consagra também que «palavras leva-as o vento». Como as palavras são muitas, há-as para todos os gostos as que se perdem e as que têm, ou são ditas como se tivessem, efeitos na acção. Estes podem ser visíveis na acção de outrem, mas também podem delimitar quadros de pensamento. Um ministro francês, Nicolas Sarkozy, falou em escumalh... José Carlos Abrantes · 21 de novembro de 2005 · 3K
Antologia // Moçambique O lago da língua * O avô, hemiplégico, sentado. A avó na ronda do quarto, entre a porta e a janela abertas. O Verão escorrendo. Então, Maria, não levas a goropelha1? Olha, o senhor engenheiro... A saia e o casaco dela, a malinha a condizer. A desmemória também, numa espécie de alívio expresso no sorriso inocente. O esforço dele para se erguer. Nos longos preparos para o passeio de domingo à tarde, bordejando o mar e o seu perfil, entretinham a velhice. Luís Carlos Patraquim · 16 de novembro de 2005 · 5K
Pelourinho A (des)autorização do erro e do desleixo Erros primários de concordância (e logo na primeira página): «Os cavalos Przewalski, a única espécie equina actual que reúne características primitivas, pode voltar ao Côa.» Ou: «Para o catedrático, boa parte destes problemas têm origem na sobreposição de situações de exclusão social, de segregação residencial e de fenómenos de rejeição de origem nacionalista e/ou racista (...)». Ou, ainda, gralhas impensáveis (na última página, em corpo de letra avantajado): «Acha que os pifese... José Mário Costa · 14 de novembro de 2005 · 2K
Antologia // Brasil Sexa «- Pai…- Hmmm?- Como é o feminino de sexo?- O quê?- O feminino de sexo.- Não tem.- Sexo não tem feminino?- Não.- Só tem sexo masculino?- É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.- E como é o feminino de sexo?- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.- Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino e feminino.- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra "sexo" é masculina. O sexo masculino, o sexo feminino.» Crónica do escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo (1936 — 2025) , transcrita, com a devida vénia, do livro Comédias para se Ler na Escola, Publicações Dom Quixote, 2002, Lisboa. Luís Fernando Veríssimo (1936 — 2025) · 10 de novembro de 2005 · 32K
Pelourinho Os gramas da pequena infanta A infanta Leonor de Espanha nasceu com 3 540 g (por extenso, três mil quinhentos e quarenta gramas). O locutor de serviço, na RTP, ao transmitir a notícia, contornou airosamente a leitura do peso, não fosse o diabo tecê-las, e arredondou-o para 3,5 quilos. Já a repórter que nos falava de Madrid foi menos cautelosa… e lá vieram as quinhentas gramas… Pois é, à semelhança das outras unidades de medida, como ... Maria João Matos · 4 de novembro de 2005 · 4K
Pelourinho // Gralhas "Fornia", ou a consagração da gralha O ser humano, enquanto falante e enquanto escrevente, usa, muitas vezes, de forma inadequada determinadas palavras. Ou então pronuncia-as ou escreve-as incorrectamente. Com as novas tecnologias consagram-se, muitas vezes, lapsos antigos ou surgem outros novos.Perguntaram-me, há dias, o que significava a palavra "fornia". Depois de pesquisar em todos os dicionários a que tive acesso e nada ter encontrado, recorri à Internet e verifiquei que, em português, a palavra tinha uma utilizaç... Edite Prada · 25 de outubro de 2005 · 3K
Pelourinho A «arruada» da campanha A recente campanha eleitoral autárquica [em Portugal] afinal sempre nos trouxe uma boa novidade. Uma palavra nova que de um momento para o outro entrou no nosso vocabulário. Trata-se da palavra «arruada», que não conhecia. De repente, a dita «arruada» aparece repetida até à exaustão em todas as televisões. Assim é o mimetismo dos meios de comunicação social dos dias de hoje. Um diz e os outros copiam. Mesmo que não saibam muito bem o que é. Adiante. Interessa é alinhar com a moda. E achar... Paulo J. S. Barata · 17 de outubro de 2005 · 3K