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Pelourinho // Anglicismos

Looksmaxxing...

e outros anglicismos narcísicos

As modas, intrinsecamente efémeras, motivam empréstimos provenientes de outras línguas, outras vezes, o aparecimento de neologismos formados de elementos vernáculos ou, ainda, a ressemantização de vocábulos já existentes, tudo constituindo um campo lexical igualmente frágil no tempo. O caso de looksmaxxing, que pode encontrar tradução na expressão «maximização da aparência» ou «maximização da atratividade», é bem ilustrativo dessa condição.

O tema já tem alguns anos nos media de língua inglesa, mas, em Portugal, só nos últimos meses as secções de moda e tendências da comunicação social lhe deram espaço. É a moda conhecida pelo anglicismo looksmaxxing, denominação de um conjunto de práticas para aperfeiçoar a aparência masculina, que surgiu nos anos 10 já deste século e parece ser popular graças ao TikTok. Esclareça-se que looksmaxxing se forma em inglês a partir de looks, «aparência», e maxx, uma truncação de maximize (ou maximise), que faz parte da gíria dos chamados incels, ou «celibatários involutários» (cf. Wiktionary).

Ao apelo mundano do inglês, sempre na moda, não resiste a atividade mediática em português, que promove a publicação de artigos mais ou menos extensos, como acontece com o texto da comentadora política Maria Castello Branco, que descreve o anglicismo em apreço na edição digital do Expresso (07/04/2026):

«O fenómeno chama-se looksmaxxing. A escala de intervenção começa na maximização do sono, passa pelo consumo de substâncias chamadas peptides [péptidos] e termina em cirurgias irreversíveis. O vocabulário é o de uma especialidade médica que ainda não existe. Canthal tilt [«inclinação palpebral»], maxillary projection [«projeção de maxilar»], gonial angle [«ângulo goníaco»], facial thirds [«terços faciais»]. Dominar esta língua é o primeiro ritual de entrada. O iniciado ganha a capacidade de se ver a si próprio de fora, com instrumentos “objectivos”, com distância clínica e, sobretudo, aprende a avaliar os outros com a mesma frieza. Os fóruns reinventaram a frenologia, chamaram-lhe ciência, e produziram uma geração de jovens que conseguem medir o ângulo da mandíbula de um estranho à segunda vista. O que é, convenhamos, um feito.»

Valerá a pena traduzir looksmaxxing com todos os apelativos de comportamentos narcísicos atrás mencionados e muitos mais? Tudo vale a pena, e, ao encontro dos incels mais jovens da machosfera (ou manosfera) lusitana, a tarefa pode não ser pequena. Mas, optando pela modéstia, fiquemo-nos apenas pela palavra que define a moda (ou a mania).

Ainda que a aura de modernidade se perca, para looksmaxxing, existem potenciais soluções vernáculas, que podem até inspirar-se nas traduções achadas para as línguas mais próximas do português. Por exemplo, em francês, define-se looksmaxxing como «maximization de l'apparence», que, sem grande esforço se transpõe para português como «maximização da aparência».

E daqui não vamos mais longe, que já demos o máximo para assunto tão frívolo e paradoxalmente tão levado a sério. Como no mito de Narciso, é bem possível que a irracionalidade da moda também mate.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa