O anglicismo tokenização
Ou um aportuguesamento imperfeito
No começo da primavera de 2026, em Portugal, continuam a acumular-se os anglicismos na comunicação pública. Um deles é o já parcialmente aportuguesado tokenização, assim definido numa publicação digital do Brasil:
«A tokenização, em sua essência, é o processo de converter um dado sensível ou um ativo real em um símbolo digital exclusivo, conhecido como token. Este token serve como uma representação do item original, mas sem expor suas informações subjacentes diretamente. É como uma ficha que representa algo de valor sem ser o próprio objeto de valor.» ("Tokenização: o que é e como funciona a economia dos tokens", Recharge.com, 12/02/2026)
Não se julgue apressadamente que a palavra é exclusiva do português do Brasil. Na verdade, o nome tokenização bem como o verbo tokenizar ocorrem igualmente em páginas identificadas por endereços de Portugal:
(1) «A tokenização é o processo de converter ativos físicos ou financeiros tradicionais em tokens digitais que existem numa blockchain. É como criar uma "versão digital" de um ativo real, mantendo todas as suas características e direitos de propriedade. » ("Tokenização", DECO PROteste Investe)
O uso do termo no português do Brasil pode ter ajudado na sua difusão em Portugal, mas é duvidoso que tokenização surja entre falantes e em textos portugueses como brasileirismo. É plausível que tokenização e o verbo donde deriva, tokenizar, constituam simples decalques do inglês tokenization (ou tokenisation) e to tokenize , respetivamente.
Mas o que importa salientar neste anglicismo parcial é, do ponto de vista ortográfico, a presença de um k. Apesar de esta ser atualmente uma letra integrante do alfabeto, na sequência da aplicação da norma de 1990 (não assim, na de 1945), o certo é que o seu uso, como o de w e y, se limita a alguns casos: derivados de nomes próprios estrangeiros, a par de siglas e símbolos. Por outras palavras, para aportuguesar devidamente quer o nome quer o verbo, a forma a escrever seria "toquenização" e "toquenizar".
Este será, portanto, mais um caso de aportuguesamento imperfeito, como sucede, por exemplo, com surf, cuja adaptação como surfe exibe, mesmo assim, o grafema "u" mais ou menos pronunciado como "a" fechado, numa imitação da vogal que figura no termo inglês.
