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O "Horizonte" e o Monstro das cores

Ignorância aliada à arrogância

Quem trabalha longos anos no ensino, ainda mais cruzando quase todos os graus de ensino, em diversos contextos, coleciona, ao longo do tempo, um rosário de pérolas, por vezes, deprimentes, mas muitas vezes cómicas, pois mais vale rir do que chorar. Nunca poderei esquecer, por exemplo, um aluno da Universidade de Macau que questionava o facto de os portugueses terem dado à sua capital o nome de um casino de Macau – Lisboa. Realmente, que falta de imaginação!

Já em Portugal, uma outra inesquecível relacionou-se com o Padre António Vieira. Num teste foi escrito que o peixe de Tobias tinha caído e partido os pés. Deste modo, o peixe lá teve de ouvir o sermão coxo, provavelmente, até o Tobias lhe arranjar umas muletas. Além disso, também Miguel Torga (cujo nome era Adolfo Correia da Rocha) se casou com o André em 1947. Além da absoluta falta de noção da História, da evolução da sociedade, e do facto de que um Miguel nunca poderia casar com um André em 1947, há o desconhecimento de que Andrée é um nome feminino, de origem francesa.

Mas houve um caso verdadeiramente lendário. Num trabalho de grupo, no ensino superior, subordinado ao tema «o medo do desconhecido» e onde se pretendia que fossem analisadas, comparativamente, duas obras alusivas a essa temática, surgiu algo de inacreditável. Um grupo escolheu comparar o livro infantil O Monstro das Cores, de Anna Llenas (que explica as emoções às crianças através das cores, tendo como protagonista  um monstro que muda de cor consoante o que sente) e o poema "Horizonte" da Mensagem de Fernando Pessoa (explora a busca humana pelo conhecimento e verdade, usando o horizonte como metáfora da descoberta…). Incrédula, ainda pensei haver algum sentido oculto naquele disparate que os meus pobres neurónios (o Tico e o Teco) não conseguiam desvendar. A autoconfiança de quem fazia a apresentação era inabalável. O argumento justificativo desta comparação era que o Monstro tinha medo de se emocionar e os marinheiros portugueses tinham medo do mar. É que se ainda fosse o Mostrengo pintadinho de vermelho ou de todas as outras cores, primeiro com a raiva e depois no seu longo lamento…Mas o «Horizonte»?

Cada vez mais desconfio que a ignorância surge sempre aliada à arrogância, aparecem juntas, aos pares, como os iogurtes, edificando uma placa impermeabilizadora à entrada de qualquer conhecimento, à descoberta de novos mundos ou simplesmente de novas abordagens. Geram-se assim monstruosidades de dimensões diversas, sem cores e desprovidas sobretudo de horizontes. Mas para esquecer este medo do desconhecido, só mesmo uns «pezinhos de peixe» de coentrada – talvez se encontrem na tal capital de nome roubado em Macau. No reino do absurdo, nada é impossível.

N. E. – Na imagem, "Adamastor", de Jorge Colaço (1868-1942), no Palácio Hotel do Buçaco (Luso, Mealhada). Crédito: Wikimedia Commons (31/03/2026).

Fonte

Texto publicado em 26/01/2026 no Jornal do Algarve.

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