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«Os EUA financiaram» ou «os EUA finaciou»?

A concordância com nomes próprios plurais

«É preciso parar de culpar os gramáticos sem antes conferir se o que eles ensinam reflete ou não a norma culta escrita da língua portuguesa

Tanto no Brasil como em Portugal, todos os gramáticos normativos tradicionais consagrados ensinam que nomes próprios (com função de sujeito) obrigatoriamente antecedidos de artigo definido no plural levam o verbo ao plural:

- Os Estados Unidos PRENDERAM Maduro.

Dessa forma, o topônimo Estados Unidos (EUA) deve vir sempre precedido de artigo definido no plural. Logo, se funcionar como sujeito duma frase, a concordância verbal se dará logicamente. O mesmo vale para qualquer topônimo de mesma natureza:

- Os EUA sempre PRODUZIRAM bons filmes.

- Os Emirados Árabes TÊM muitas riquezas.

- Os Andes FASCINAM qualquer um.

Logicamente, portanto, se um topônimo nunca for antecedido de artigo definido plural, a concordância verbal será no singular:

- Montes Claros É um lugarzinho especial.

- Campinas FOI onde minha amiga nasceu.

- O Amazonas CONQUISTOU meu coração.

Segundo a linguista Maria Helena de Moura Neves, em sua ótima gramática, os topônimos Alagoas e Minas Gerais podem vir ou não antecedidos de artigo definido plural, de modo que são corretas as possibilidades a seguir:

- As Alagoas se DESTACAM pelas belas praias.

- Alagoas se DESTACA pelas belas praias.

- As Minas Gerais CRIARAM o pão de queijo.

- Minas Gerais CRIOU o pão de queijo.

«Ué, Pestana! Então as manchetes de jornais estão todas erradas, né?»

Não.

Segundo o linguista José Augusto Carvalho, em seu livro Problemas e Curiosidades da Língua Portuguesa (2018), «uma frase como "Estados Unidos invadem o Iraque" é admissível como manchete de periódico, em que a ausência do artigo se permite talvez por economia de espaço; mas a concordância verbal se faz como se o artigo estivesse lá...». Eis outros estudiosos da área que corroboram o que ele diz: Pasquale Cipro Neto, Dad Squarisi, Sara Mourato. Não conheço nenhum estudioso que desdiga ou desabone tal esclarecimento desse caso ultraespecífico.

Em outras palavras, a omissão do artigo definido os é apenas um recurso estilístico típico do gênero textual manchete. Isso é próprio da linguagem jornalística. Sublinho: não há erro, portanto, na redação das manchetes... das manchetes!

É isso.

Agora, atenção!

Vários sites, blogs e certos livros de tira-dúvidas ensinam errado, afirmando que, em qualquer circunstância, está certa a frase «Estados Unidos FINANCIOU muitos países». Não, não está certa, pois o artigo definido plural antes de EUA é obrigatório (exceto em manchetes), levando o verbo ao plural: «Os Estados Unidos FINANCIARAM muitos países.»

A quem defende que a língua é uso e que os gramáticos normativos são caga***** de regra, eis aqui uma informação importante (baseada no uso): em pesquisa no Corpus do Português (dentro do corpo de milhares de textos em linguagem jornalística brasileira contemporânea), só se encontraram apenas 5% (cerca de 60 casos) de «Estados Unidos (ou EUA)» funcionando como sujeito não antecedido de artigo definido e 95% (cerca de 1.200 casos) de «Estados Unidos (ou EUA)» funcionando como sujeito antecedido de artigo definido, como ensinam os gramáticos normativos. É preciso parar de culpar os gramáticos sem antes conferir se o que eles ensinam reflete ou não a norma culta escrita da língua portuguesa.

Fonte

Apontamento que o gramático Fernando Pestana publicou no Facebook em 07/01/2026.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa