Diversidades // Diversidade linguística na CPLP
Português, língua do amor
No Brasil, em Portugal, em Moçambique...
Fizeram-me uma pergunta: «Porque é que uma rapariga arménia que reside em Portugal fala português brasileiro?» O autor da pergunta era ele, o homem de bigode na cara, lapiseira atrás da orelha e cigarro na mão. O homem, que extraía da boca sons tão limpos que nem a nicotina os podia sujar. O homem de Coimbra.
«Oh, meu caro Conimbricense», respondi. «Nada "especiau". Achava que era mais aberto, mais carinhoso, mais "musicau".» Menti. Não diria logo no primeiro encontro que era porque antes de o conhecer tinha um namorado carioca e queria que ele me achasse legal.
"Papo reto", o Carioca era o homem mais maneiro que na altura conheci. Um varapau dos olhos grandes e pretos, dos dentes pequenos e brancos, e das pernas fortes. Eu não era uma beldade, e por essa razão escolhi o caminho intelectual para impressioná-lo. Na aparência, se calhar, não era gatinha, mas eram as minhas capacidades mentais que faziam sempre de mim uma "muié do balacobaco".
«Quer ir pra praia comigo?», perguntei, e ele não quis.
«Gosto muito "dji" você», disse eu, e ele não ficou feliz.
«Estou aprendendo português para falar com você.» Mas ele não me dava atenção.
«O pai da aviação foi Alberto Santos Dumont, e não os irmãos Wright.» E ele me beijou com a boca de feijão.
O que se seguiu foi um sonho lindo: todo dia eu acordava às seis, fazia café da manhã e, como eu dizia, «tirava as aulas da língua». À noite, jantando, contava-lhe tudo o que aprendia, e ele chamava-me "mozão" [amorzão]. Juro, nos meus vinte e três anos de vida, nunca experimentei um amor assim tão estimulante e forte, mais forte do que o som do r em razão.
"Tamo junto" – cantava o Carioca para mim, e eu acreditava. Mas um dia depois de eu ter conjugado os verbos irregulares no imperativo, confessou que se enganara. «Você é uma mulher fantástica, mas encontrei uma nova rapariga.» Foi rapariga que ele disse. Tenho a certeza.
Depois de meses de solidão e tristeza, encontrei o meu novo amor, o homem conimbricense. Este, apesar de ser mais feio, dedicava-me mais tempo: a mim e ao meu português. Cada vez que o pronome reflexivo saltava antes do verbo, punha-o logo no lugar certo. Que felicidade, pensava eu, namorar com alguém que era tão esperto!
A vida parou de ser legal e tornou-se muito fixe. Não pensava mais no Carioca, que se lixe! Agora tremia cada vez que o Conimbricense direcionava os olhos para o meu joelho. Comprou-me também uns livros do Eça de Queirós para eu ler, em vez do Paulo Coelho. E à noite, quando estávamos na cama, sozinhos na escuridão negra, murmurava eu: «Ensina-me, por favor, os regionalismos da tua terra.»
Mas, tristemente, a vida não é uma novela, nem o livro de exercícios Português no Foco.
Muito rápido comecei a sentir que o Conimbricense não gostava do modo como eu preenchia os espaços em branco. Tentei pedir aos meus amigos que me ensinassem palavras carinhosas que pudesse usar nas conversas com o meu amor. Mas quando lhe chamei “meu soronga” e “meu aloilado” não foi nada encantador.
Os dramas e brigas não paravam, no meu manual não havia capitulos sobre isso. Eu não sabia o que ele queria, ainda não tinha chegado ao conjuntivo. Enfim, o Conimbricense deixou-me, fiquei de novo sozinha, eu e a minha língua "porreira". Ao despedir-se, o meu amor chorou e chamou-me uma coisa religiosa, acho que era romeira.
Agora passaram muitos meses e sinto-me melhor. Chegou a altura de conhecer o meu novo amor. Amanhã tenho um encontro, convidou-me para um piquenique. Parece um rapaz bom.
E é de Moçambique.
