Eu “doxo”, tu “doxas”, nós “doxamos” - Diversidades - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Início Outros Diversidades Artigo
Eu “doxo”, tu “doxas”, nós “doxamos”
Eu “doxo”, tu “doxas”, nós “doxamos”
Uma arma de ódio e vingança

 

1443709796118_computador_2.jpg

«(...) Na prática, a «vítima de doxing» acorda e vê que alguém publicou na Internet, à vista de todos, a morada da sua casa, o número do seu telemóvel, os dados do seu cartão de cidadão, o número da sua carta de condução, os dados do seu cartão de crédito ou as passwords do seu correio electrónico e redes sociais. Às vezes, o doxing inclui os dados de saúde, as doenças, operações, tratamentos. (...)»

 

Decidi escrever sobre doxing ao perceber que uma amiga que sabe muito sobre muitas coisas desconhecia a palavra. É fácil contar a história do doxing. Difícil é imaginar o lugar para onde nos vai levar.

O doxing nasceu nos anos 1990 no universo dos piratas informáticos e entrou na linguagem comum em 2014, quando a Newsweek foi acusada de ter doxed Satoshi Nakamoto, o nome — talvez fictício — do inventor (talvez inventora, talvez inventores) da bitcoin. No dia em que a Newsweek recebeu o rótulo, a Wired publicou um artigo a explicar a expressão (“What Is Doxing?”) e, logo a seguir, a Economist fez o mesmo (“What doxxing is, and why it matters”).

Segundo a Newsweek, «o pseudónimo Satoshi Nakamoto é na verdade um homem de 64 anos chamado Satoshi Nakamoto», explicou The Economist. «O Sr. Nakamoto em questão negou ser o inventor da bitcoin. De facto, numa entrevista que deu depois a um repórter da Associated Press, teve dificuldade em dizer correctamente a palavra bitcoin. Mas tão impenetrável quanto o funcionamento interno da criptomoeda é uma curiosa palavra usada para descrever como é que o suposto inventor da bitcoin foi descoberto: o Sr. Nakamoto foi doxxed” (caro leitor: a história é ainda mais complicada e hoje, sete anos depois, ninguém acredita que o inventor tenha sido Nakamoto e continuamos sem saber quem foi).

 Dox — ou doxx —é um neologismo que nasceu da corruptela docs, abreviatura de documents, que degenerou em dox e passou a verbo por causa do dropping documents — descarregar, despejar, enviar ou entregar documentos. A app Dropbox, para partilha de documentos pesados, prova a popularidade do verbo drop.

Quando há 25 anos se começou a usar a palavra, dox referia-se aos piratas que roubavam dados pessoais — alguns muito privados —, e tornavam-nos públicos, por razão nenhuma ou para irritar um adversário ou alguém de quem não gostavam. Na prática, a «vítima de doxing« acorda e vê que alguém publicou na Internet, à vista de todos, a morada da sua casa, o número do seu telemóvel, os dados do seu cartão de cidadão, o número da sua carta de condução, os dados do seu cartão de crédito ou as passwords do seu correio electrónico e redes sociais. Às vezes, o doxing inclui os dados de saúde, as doenças, operações, tratamentos.

Hoje, já não é só isso. A expressão evoluiu e há quem a use como sinónimo de jornalismo de investigação. ​A Economist cita Farhad Manjoo, colunista de tecnologia do New York Times, que há uns anos disse que o «doxing is the new name for reporting» [«doxing é o novo nome de "informar"»]É uma ideia estranha e que nos leva para o debate do bom doxing versus mau doxing.

Sou leiga no tema, mas só vejo mau doxing. Um jornalista publica documentos a mostrar que a pessoa X roubou, corrompeu, insultou, discriminou ou caluniou – chamamos a isso jornalismo. Um cidadão entrega às autoridades documentos a mostrar que a pessoa Y ameaçou, bateu ou incitou ao ódio e à violência numa manifestação – chamamos a isso denúncia. Uma pessoa informa o patrão de Z que Z defende ideias absurdas ou erradas – chamamos a isso bufos.

doxing é diferente. Quando é doxing clássico, não tem salvação, é sempre feio. Um colega sábio destas coisas explicou-me que, muitas vezes, quem despeja dados privados em sites não tem sequer um propósito. É só porque sim, porque é giro e porque prova o talento do pirata. É o que acontece quando há uma “falha de segurança” e aparecem na Internet milhões de passwords do Facebook ou do Twitter. É comum em sites como o Pastebin.com – o balde do lixo (bin) onde se faz o paste («despejar») dos dados de que fizemos copy –, Reddit ou o 4Chan. Está a reconhecer o nome 4Chan, não é? Claro: foi aí que nasceu o movimento QAnon e as loucas – e perigosas e violentas – teorias da conspiração que ajudaram à invasão do Capitólio, em Washington.

Nos últimos dois meses, o doxing passou a ser crime em dois estados norte-americanos – Colorado e Oklahoma – e em breve será em mais três. Radicais à esquerda e à direita usam o doxing como arma letal, num permanente fogo cruzado. Numa reportagem de 2017, o New York Times cita uma mulher que diz: «Dox a nazi all day, every day.» [«Doxe um nazi um dia inteiro todos os dias.»]  Estou a ver daqui: que horror, ela está a defender os neonazis! Calma: o combate político contra os neonazis não se faz expondo as moradas, os cartões de crédito ou enviando vídeos para o patrão. Um neonazi despedido assim vai radicalizar-se ainda mais. Desmascarar adversários políticos roubando-lhes os dados privados não é combate – é abuso e é crime. E não é o futuro. O doxing é mainstream.

Fonte

Artigo da jorrnalista Bábara Reis, transcrito, com a devida vénia, do diário português Público de  26 de junho de 2021.

Sobre o autor

Jornalista do diário português Público desde 1989. Trabalhou nas secções Internacional e Sociedade e foi correspondente em Nova Iorque entre 1995 e 2000. Integrou a missão UNTAET em Timor (2000-2002), e foi porta-voz de Sérgio Vieira de Mello (1948 – 2003), administrador transitório até à independência. Regressou ao Público no fim de 2002, onde editou a secção de Cultura (2002-2007) e o suplemento P2 (2007-2008), e foi diretora do jornal (2009-2016). Atualmente, é redatora principal.