Ter que e ter de - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Ter que e ter de

«Dir-se-á» que o infinitivo impessoal das frases de que vos servistes, para defender a vossa tese, exerce as funções de um nome e, nunca, as de «predicado» da oração.
Será correcto escrever «tenho muito para contar», «elas tinham muitas coisas para dizer» e «não tens mais nada para fazer»?
De qualquer modo, o vosso argumento não colhe; talvez não tenhais reparado que, se utilizásseis o velho método de perguntar ao verbo «quem?», «que coisa?», concluiríeis que as respostas seriam «contar muito», «dizer muitas coisas» e «fazer mais nada».
Se aqueles verbos fossem o predicado de uma oração, o complemento directo continuaria a não ser o «que».
Julgo ter compreendido a vossa dúvida ao ler a frase «Quando se estuda ter que, costuma-se estudar também ter de...»; o objecto de estudo deveria ser o infinitivo impessoal incluído na oração, que, obviamente, estará ligado aos outros elementos da mesma por uma preposição. «Ter que» e «ter de» são questões complementares, invocadas quando não se consegue ter uma visão global do objecto de estudo.
Se persistir alguma dúvida sobre este assunto não hesitem: consultem-me!
O meu galicismo "face a" fere-me menos os ouvidos e a vista que o "mail" utilizado nos endereços de correio electrónico; eu escrevi palavras portuguesas, sem desvirtuar a sua semântica.

José Pedro Reis Borges Portugal 7K

Na resposta que já demos sobre este assunto, (Cf. Respostas Anteriores) é natural que tenhamos sido demasiado concisos, do que pedimos desculpa.
A expressão ter de + infinito julgamos que ficou clara. É uma locução verbal com os significados de ter necessidade/precisão/desafio/obrigação (e outros quejandos) + de + infinito.

Em ter que, o caso é outro: há duas orações. Seja a frase: «Tenho (muitas coisas) que fazer.». Analisemos:

a) Tenho (muitas coisas) - oração subordinante.

Sujeito - eu.

Predicado - tenho (muitas coisas), em que (muitas coisas) é o complemento directo de tenho.

O complemento directo pode estar expresso ou não; por isso mencionámo-lo entre colchetes.

b)Que fazer - oração subordinada à anterior, relativa e infinitiva. Tem valor circunstancial de fim (= para fazer).

Fazer - predicado;

Que - complemento directo de fazer;

(Eu) - sujeito;

Compreende-se que o sujeito da segunda oração seja eu pelo seguinte:
Sendo esta oração relativa final, a frase Tenho que fazer é equivalente à seguinte, em que escrevemos entre colchetes os elementos que, empregando o pronome relativo, podem vir ou não vir expressos:

Tenho (muitas coisas) para (eu) fazer.

É claro que, na oração relativa final, não podemos empregar o pronome pessoal sujeito eu.

A oração final infinitiva mostra que, quando empregamos a oração relativa, o sujeito eu está subjacente.

Se alguma dúvida persistir, estamos inteiramente ao vosso dispor.

José Neves Henriques