DÚVIDAS

Os valores da preposição por

No início do ano litúrgico do ano passado, as igrejas no Brasil passaram a usar uma nova edição do Missal Romano, que, apesar de sofrer algumas alterações, os responsáveis pela revisão conservaram a fórmula de consagração: «…será entregue/derramado por vós.»

A meu ver, num contato direto com o texto em português, alguém encontrará um problema de interpretação, pois o pronome introduzido por por pode indicar outras interpretações pelo fato de seguir formas passivas: «…será entregue…» e «…será derramado…».

Se se recorrer ao texto da qual foi traduzido, se verá que a preposição utilizada em latim é pro, correspondente, por sua vez, a ύπέρ do texto bíblico em grego. Tanto em latim quanto em grego podem significar «a favor de» ou «no lugar de», sendo esta última a que a Igreja se serve para interpretar o texto.

Também, a respeito da preposição por (per), Cláudio Brandão escreve:

«Conquanto difiram na etimologia (latim pro, que por metátese deu por) e per (latim per), estas duas partículas confundiram-se semanticamnte na Ibéria. O português antigo às vezes ainda as distingue quanto ao sentido, mas isto nem sempre acontece. O mesmo escritor não raro usa delas indiscriminadamente» (Sintaxe Clássica Portuguêsa, 1963, § 357).

Daí se vê um pequeno aceno a preposição latina pro.

Sei que seria estranho dizer: «…será entregue/derramado pro vós«?

Porém, em textos do português antigo, há realmente registros do uso da preposição pro com o significado de «no lugar de» em vez de por?

Se sim, vocês poderiam trazer alguns exemplos?

Desde já, obrigado.

Resposta

Nas páginas 247 e 248 da segunda edição do livro Gramática Histórica da Língua Portuguesa, de Said Ali, que não aponta em momento algum ser pro uma forma arcaica presente no português, destaca-se que per, outrora muito usada, caiu em desuso na língua moderna, sobrevivendo apenas em formas fossilizadas como «(de) per si», «de per meio», perante e pelo (contração de per + lo), esta última tendo suplantado definitivamente pollo (por + lo). Em português antigo, per tinha valores semelhantes aos do latim: indicava passagem (através de), meio, lugar por onde algo se estende e duração temporal.

Houve, em certos contextos, confusão semântica entre per e por (do latim pro), mas o desaparecimento de per é atribuído sobretudo à semelhança fonética entre as duas preposições átonas e à maior frequência de uso de por.

Quanto a por, o texto destaca o sentido de «em favor de», do qual derivaram, já no latim, os valores de «em lugar de», «em troca de», todos preservados no português. A partir do sentido de favor, desenvolveu-se também o valor de finalidade ou intenção. No português antigo – e ainda em Camões –, por (e não pro) foi usada de modo ambíguo tanto para indicar finalidade quanto causa.

Lê-se o mesmo – direta ou indiretamente, ampliada ou reduzidamente – em outros estudiosos mais antigos (séculos XIX e início do XX) que trataram desse assunto, como Sousa da Silveira (em Lições de Português), Ismael de Lima Coutinho (em Pontos de Gramática Histórica), Eduardo Carlos Pereira (em Gramática Expositiva), Alfredo Gomes (em Gramática Portuguesa), João Ribeiro (em Gramática Portuguesa), Augusto Freire da Silva (em Gramática Portuguesa), Augusto Epifânio da Silva Dias (em Sintaxe Histórica Portuguesa), Maximino Maciel (em Gramática Descritiva), Júlio Ribeiro (em Gramática Portuguesa), etc.

Dito isso, foi encontrado apenas um exemplo em português arcaico (no Corpus do Português) da preposição pro com o valor semântico de substituição ou favor, equivalente a «no lugar de» ou «em favor de»:

«Santa Maria jntercede PRO ME.» — Documentos do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (século XIV).

Sempre às ordens!

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