O significado de agramaticalidade e de erro - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
O significado de agramaticalidade e de erro

Gostaria de saber o significado, mais aprofundado, de agramaticalidade e erro.

O dicionário da Porto Editora [em linha] define o termo agramatical, «que não está de acordo com os princípios e regras de uma dada gramática», sem se referir à questão da comunicação em si.

Num site brasileiro define-se o primeiro termo, agramatical: «infração a determinadas regras do sistema linguístico, que impede que a comunicação seja estabelecida.» Acrescenta ainda «quando isso acontece, a comunicação torna-se inviável». Apresenta em seguida o exemplo «Não hoje a criança o viu brinquedo lá».

O mesmo site define erro como «uma inadequação do uso da língua, vinculada a um padrão e à aceitabilidade social de quem fala, mas que não compromete a instauração da comunicação», ou seja, uma "inadequação", diferenciando assim os dois termos.

A minha questão surge, pois no Ciberdúvidas apresentam-se como agramaticais algumas situações que, a meu modesto ver, não me parecem ir totalmente ao encontro da definição encontrada no mencionado site (no que se refere apenas à "impossibilidade" da comunicação).

Quando leio ou ouço alguém dizer «ele está mais melhor», eu percebo que a pessoa em causa quer dizer que «ele recuperou», «está melhor»; ou quando leio «Duvido que o Brasil virá a ser um grande exportador de petróleo», eu entendo que o que se quer dizer é que alguém duvida que o Brasil venha a ser um grande exportador de petróleo.

Não tenho dúvidas de que eu esteja enganado, pois apenas sou um estudante de português, por isso gostava que me explicassem melhor as grandes diferenças entre aquilo que é agramatical e aquilo que é errado (inadequado).

Muito obrigado!

Rogério Silva Estudante Macau, China 8K

A viabilização/inviabilização da comunicação (ou da regular compreensão do conteúdo informativo veiculado numa frase) não é critério para distinguir gramaticalidade de erro.

1. Gramaticalidade

O linguista tem por objectivo descrever o sistema da língua. Para tal, toma como base do seu estudo a análise de um corpus de enunciados, ou de segmentos de enunciados, efectivamente produzidos pelos falantes nativos de uma língua.

Na recolha desse corpus faz-se apelo à intuição linguística dos informantes. O falante/informante faz então um julgamento sobre se um dado enunciado pertence ou não à sua língua. Ora, um falante pode considerar um enunciado anómalo por múltiplas razões: ele pode excluir a viabilidade de um enunciado porque o considera pesado, confuso ou inestético. Porém, ao linguista interessa apenas saber se um dado enunciado é ou não possível numa língua, isto é, se (i) está em conformidade com as regras de formação do enunciado; (ii) se é passível de ser produzido com regularidade nessa língua.

Daí que a noção de gramaticalidade admita graus, ou seja, se desenrole num continuum:

— o asterisco ( *) marca a agramaticalidade total da construção;
— a ausência de qualquer marca assinala a plena gramaticalidade da construção;
— entre estes dois pólos, do menos gramatical para o mais gramatical, usam-se os sinais: ?*, ?? e ?.

Gramatical/agramatical são termos metalinguísticos.

2. Erro

A noção de erro implica a existência prévia de prescrições que condenam certos usos.

O erro não é graduável: ou há erro, ou não há.

Erro, correcto, incorrecto não são termos metalinguísticos.

3. Exemplo

a) «Tu comestes aquilo que gostas.»

Esta frase está errada (tem dois erros1), mas é gramatical, porque corresponde a uma construção frequente e linguisticamente atestável e também porque em morfologia e em sintaxe se explicam os factores que a propiciam.

Isto não quer dizer que o linguista aprove a vulgarização de construções como a exemplificada em a). Mas também não quer dizer que a condene. Quer dizer que o linguista, para o ser — isto é, para desenvolver um estudo científico da língua, com objecto de estudo e metodologia, por via da descrição rigorosa de dados, conducente à formulação de hipóteses descritivas de fenómenos linguísticos —, suspende o seu julgamento normativo.

1Tu comestes é erro de flexão de pessoa verbal; o correcto é: tu comeste. Aquilo que gostas é erro de regência; o correcto é: aquilo de que gostas

Ana Martins
Classe de Palavras: substantivo
Áreas Linguísticas: Gramática; Outros