DÚVIDAS

O que era, o que é e o que virá, outra vez

A resposta do Prof. José Neves Henriques suscita uma dúvida de ordem semântica, que está na origem da minha pergunta. Vejamos: "o que era, que é e que virá" não me parece ser o mesmo que "o que era, o que é e o que virá". Na primeira frase há uma idéia de simultaneidade, e, na segunda, não. Supondo-se que se trata do passado, do presente e do futuro, não é possível, no âmbito do pensamento, visualizar algo que incorpore simultâneamente os três estados temporais.
Assim, se, a exemplo do prezado Professor, mudássemos a frase, teríamos: "Na Bíblia, o passado, o presente e o futuro são descritos com sabedoria" (verbo no plural, concordando com o sujeito composto). Não se poderia estender esse raciocínio para cada pronome "o", que adquiriria um caráter semântico diferente dos demais, forçando a considerar a frase constituída de sujeito composto com três núcleos, portanto, com o verbo no plural?
Evidentemente o verbo no singular soa melhor; evidentemente, como já tem repetido o Prof. José Neves Henriques, a Língua é também para ser sentida; mas a questão permanece...
Obrigado.

Resposta

Isto será transcrição da Bíblia, do Apocalipse, 17, 8, que se refere à besta?
Será, embora pareça um tanto modificado?
Bem... mas vamos ao assunto. Em primeiro lugar, manifesto-lhe a minha satisfação, por não ter concordado comigo. Sim, a minha gratidão, porque nada aprendo com quem concorda comigo. Aprendo com os que discordam de mim, porque me levam a observar, a pensar, a estudar e a resolver. E assim aprendo.
Vejamos então:
(a) O que era, que é, e que virá.
(b) O que era, o que é e o que virá.
Peço desculpa, mas em (a) não temos a «idéia de simultaneidade», porque simultaneidade é o que ensina o dicionário que tenho aqui: «qualidade do que ocorre, se realiza, se produz ao mesmo tempo; coincidência.»
No exemplo (a), não há ideia de simultaneidade, porque as coisas não ocorrem ao mesmo tempo: «que era» indica passado; «que é» indica presente; «que virá» indica futuro. Não há ideia de simultaneidade em (a) nem em (b).
Julgo que o ser humano pode visualizar no mesmo instante o passado, o presente e o futuro, embora talvez não sinta a mesma nitidez de quando visualiza apenas um tempo, como possivelmente acontece perante a seguinte frase:
(c) O João esteve no Brasil, agora está em Portugal e na próxima semana estará na França.
Ajuda-nos a visualizar os três tempos o facto de podermos visualizar os três países no mesmo instante.
Vejamos então a seguinte frase:
(d) Na Bíblia, o passado, o presente e o futuro são descritos com sabedoria.
Aqui, o verbo está no plural, porque não se encontra junto do sujeito. Se pusermos o verbo junto de cada sujeito, ele fica no singular, como vemos na frase (a) e na (b).
(e) Na Bíblia, o passado é descrito com sabedoria, o presente é descrito (...), eo futuro é descrito (...).
Aqui, não há três núcleos de sujeito com o verbo no plural.

 

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