Modo conjuntivo, de novo - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Modo conjuntivo, de novo

Muito obrigado pela sua resposta; ajudou-me, mas tenho mais dúvidas.

Aqui vão:

Meu problema é: ainda não compreendo porque se usa modo conjuntivo nestas orações. O problema não é o verbo mesmo nem o tempo futuro, passado, presente, etc., mas saber em que circunstâncias se usa o modo conjuntivo em geral.

1. Na frase “Há, porém, mais que dizer, mas melhor seria enviar frases em que tivesse dúvidas, para ser devidamente esclarecida.”, usa o conjuntivo "tivesse" por causa de ser uma oração hipotética, quase como: "se tivesse dúvidas..."?
2. Na frase “Há duzentos anos, não havia ninguém que julgasse ser possível demorar apenas uma hora para irmos de Portugal ao Brasil.”, usa o conjuntivo "julgasse" por causa de "ninguém" não ser uma pessoa específica?
3. Na frase “Não conheço ninguém que tivesse dito isso.”, usa o conjuntivo "tivesse" por causa de "ninguém" não ser uma pessoa específica?
4. Na frase “Ajuda sempre aqueles que/os que precisarem de ti.”, usa o conjuntivo "precisarem" por causa de "aqueles" não ser uma pessoa específica?

Compreende o meu problema?

Espen Roed 19K

O emprego do conjuntivo em geral, ou de qualquer outro modo, depende da intenção do falante e não tem nada que ver com o tipo de pessoa a quem ele se refere ou escolhe para sujeito, mas com o modo como concebe a acção, com a natureza dessa acção, desse facto.

Quem constrói a frase é que sabe em que tempo quer colocar a acção (tempo verbal) e de que maneira, de que modo, a quer enunciar (modo verbal).

Ao utilizarmos o modo conjuntivo, consideramos a existência do facto a que nos vamos referir como algo de incerto, duvidoso, hipotético, eventual, ou, mesmo irreal, absurdo. Por outro lado, o conjuntivo é o modo exigido em orações que dependem de outras cujos verbos contêm a ideia de desejo, pedido, súplica, vontade, ordem, conselho, proibição, dúvida, lamento, negação, rejeição, condição, ou similares.

Naturalmente que o tempo verbal é importante, porque a utilização de um determinado tempo/modo (par indissociável) utilizado na oração principal vai condicionar na frase os outros tempos e modos.

Na 1.ª frase que transcreve, foi utilizado o pretérito imperfeito do conjuntivo, porque se pôs a hipótese de a consulente ter dúvidas. Essa hipótese foi colocada na sequência do condicional “seria”, daí o uso do imperfeito do conjuntivo. Se, por exemplo, em vez desse condicional “seria”, tivesse sido utilizado o futuro do indicativo (“será”), já o tempo a empregar a seguir seria o presente do conjuntivo: “...o melhor será enviar frases em que tenha dúvidas.”

Na 2.ª frase, esse imperfeito do conjuntivo (“julgasse”) também exprime uma hipótese, hipótese essa colocada no passado.

Na 3.ª frase, com o pretérito mais-que-perfeito do conjuntivo (“tivesse dito”), pretende o autor da frase indicar uma acção irreal em tempo passado. Ao empregar o presente do indicativo (“não conheço”), o autor poderia ter utilizado o pretérito perfeito do conjuntivo (“Não conheço ninguém que tenha dito isso.”), mas utilizou o pretérito mais-que-perfeito do conjuntivo precisamente para traduzir essa irrealidade da acção.

Na 4.ª frase, foi utilizado o futuro do conjuntivo, porque o falante exprime a eventualidade de haver pessoas que precisem do seu interlocutor. Nessa eventualidade, ele dá-lhe um conselho (“ajuda”), com o verbo no imperativo, do qual decorre o futuro do conjuntivo.

Maria Regina Rocha