História: esdrúxula ou palavra grave? - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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História: esdrúxula ou palavra grave?

A. Na Abertura de 12/11/2013 diz-se: «Palavras como história, área ou vário, que têm encontros vocálicos átonos em posição final, têm um acento gráfico que as torna aparentemente esdrúxulas (ou proparoxítonas), mas a verdade é que são graves (ou paroxítonas), e daí chamar-se-lhes "falsas esdrúxulas".»
B. Na resposta a que alude a Abertura, pode ler-se: «Remédio é, de facto, uma palavra esdrúxula (ou proparoxítona), pois a sílaba tónica recai na antepenúltima sílaba: re-mé-di-o (cf. Dicionário da Divisão Silábica, do Portal da Língua Portuguesa).»
Fiquei com as ideias ligeiramente baralhadas. Então, a palavra história pode ser designada das três formas: grave, esdrúxula e esdrúxula aparente?
Embora se trate de um caso especial, parece-me razoável e muito mais simples chamar-lhe apenas esdrúxula. Sempre foi essa a perspetiva que adotei nas minhas aulas.
Abraço à equipa do Ciberdúvidas.

António Pereira Professor aposentado Setúbal, Portugal 10K

A perspetiva que adotou na suas aulas é legítima, pois justifica-se por razões pedagógicas e didáticas.

No entanto, convém lembrar que já no Acordo Ortográfico de 1945 (AO 45) não ficava absolutamente claro o estatuto dos encontros vocálicos pós-tónicos.

Com efeito, na Base XIX do AO 45, em referência ao uso de acento cicunflexo nas proparoxítonas, incluem-se como exemplos palavras que apresentam encontros vocálicos pós-tónicos, deixando inferir que estes são tratados como hiatos e as palavras onde figuram são proparoxítonas ou esdrúxulas:

«As vogais tónicas a, e e o de vocábulos proparoxítonos levam acento circunflexo, quando são seguidas de sílaba iniciada por consoante nasal e soam invariavelmente fechadas nas pronúncias normais de Portugal e do Brasil: câmara, pânico, pirâmide; fêmea, sêmea, sêmola; cômoro. Mas levam, diversamente, acento agudo, que nesse caso serve apenas para indicar a tonicidade, sempre que, encontrando-se na mesma posição, não soam, todavia, com timbre invariável: Dánae, endémico, género, proémio; fenómeno, macedónio, trinómio

No entanto, verifica-se que na Base XIII se diz que tais encontros vocálicos podem ser ditongos:

«3.° Além dos ditongos orais propriamente ditos, os quais são todos decrescentes, admite-se, como é sabido, a existência de ditongos crescentes. Podem considerar-se no número deles os encontros vocálicos postónicos, tais os que se representam graficamente por ea, eo, ia, ie, io, oa, ua, ue, uo: áurea, áureo, colónia, espécie, exímio, mágoa, míngua, ténue, tríduo

Sendo assim, o AO 45 também admite que colónia ou espécie são palavras graves, e não esdrúxulas. Daí a denominação «falsas esdrúxulas».

Note ainda que, na perspetiva de considerar como ditongos os referidos encontros vocálicos, a grafia não dispensaria o acento gráfico, uma vez que este é necessário nas palavras graves que terminam em ditongo decrescente oral ou nasal: hóquei, órgão.

Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo (1984, pp. 50 e 68/69), referem-se a estas palavras como casos em que tais sequências vocálicas pós-tónicas podem ser interpretadas ora como hiatos ora como ditongos crescentes.

De qualquer modo, de maneira a não desconcertar os nossos consulentes, modalizámos um pouco a afirmação feita acerca das falsas esdrúxulas.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma