«Amar a Deus», «ver a Deus», etc. - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Amar a Deus», «ver a Deus», etc.

Quando se aplicam alguns verbos a Deus, às vezes se coloca a preposição «a» («amar a Deus», «ver a Deus», «conhecer a Deus...») É obrigatório? Tem algum matiz distinto? Esta dica vale para todos os verbos transitivos directos aplicados a Deus? Obrigado.

Juan Miguel Estudante Madrid, Espanha 5K

Os verbos amar, ver e conhecer regem normalmente complemento (objecto) directo. Exemplo: «Eu amo os meus filhos», «Eu gosto de vê-los com saúde» e «Conheço-os bem».

Existem muitas expressões em que «Deus» é complemento indirecto, como, por exemplo, «Eu peço a Deus», «Eu rogo a Deus». Há casos em que podemos usar ou não o complemento objecto directo. Exemplo: «Eu rezo (uma oração) a Deus.» Nesta evolução, chegamos a um ponto em que a preposição já não indica o complemento (objecto) indirecto, mas a distância reverencial: assim como se diz «Eu oro a Deus», constrói-se a frase «Eu amo a Deus», etc.

No caso de «Eu amo a Deus», bem como nos casos semelhantes, «Deus» é complemento (objecto) direc(to), como podemos ver no seguinte contexto: «Eu vejo a Deus, eu conheço-O.»

O objecto directo preposicionado é mais frequente quando se emprega a palavra Deus, mas não se limita a este caso. Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa, págs. 418/419) identifica as seguintes situações de uso:

«a) Quando se trata de pornome oblíquo tônico (uso hoje obrigatório):

"Nem ele entende a nós, nem nós a ele" [Os Lusíadas, V, 28]

b) quando, principalmente nos verbos que exprimem sentimentos ou manifestações de sentimento, se deseja encarecer a pessoa ou ser personificado a quem a ação verbal se dirige ou favorece:

Amar a Deus sobre todas as coisas.

Consolou aos amigos.

c) quando se deseja evitar confusão de sentido, principalmente quando ocorre:

1) inversão (o objeto direto vem antes do sujeito):

A Abel matou Caim.

2) Comparação:

"Isto causou estranheza e cuidados ao amorável Sarmento, que prezava Calisto como a filho" [Camilo Castelo Branco, A Queda de Um Anjo]

d) na expressão da reciprocidade: um ao outro, uns aos outros:

Conhecem-se uns aos outros.

e) com o pronome relativo quem:

Conheci a pessoa a quem admiras.

f) nas construções paralelas com pronomes oblíquos (átonos ou tônicos) do tipo:

"Mas engana-se contando com os falsos que nos cercam. Conheço-os, e aos leais" [Alexandre Herculano, O Bobo]

g) nas construções de objeto direto pleonástico, sem que constitua norma obrigatória:

"Ao ingrato, ou não o sirvo, porque (para que) me não magoe" [Rodrigues Lobo].»

A. Tavares Louro
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: preposição