DÚVIDAS

A sintaxe do verbo haver

Lindley Cintra e Celso Cunha, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, dizem que o verbo «haver» quando significa «existir» não tem sujeito e sempre assim ensinei aos meus alunos. Entretanto, em conversa com uma professora de latim, ela mostrou a sua estranheza argumentando com a sintaxe latina do verbo «haver». A dar-lhe razão, na Gramática do Português Actual, de José de Almeida Moura, da Lisboa Editora, lê-se na página 227: «O sujeito das formas existenciais de haver que só apresentam a 3.ª pessoa do singular pode surgir no plural tomado como um conjunto.» Segue o exemplo: «Há livros raros.»
Face a estas duas opiniões tão desencontradas, em que ficamos? No caso do exemplo supracitado, «livros» é complemento directo como defende Lindley Cintra ou é sujeito conforme a Gramática Actual de José Moura?
Agradecia uma opinião fundamentada.

Resposta

No capítulo 10 da Gramática da Língua Portuguesa de Mira Mateus e outras, 5.ª edição, é possível encontrar um conjunto de testes que permitem identificar a função sintáctica dos constituintes de uma frase.

Na caso do sujeito, um dos testes é a substituição da expressão a testar pelo pronome pessoal nominativo que lhe corresponde, se for uma expressão nominal, ou pelo demonstrativo isso, se se tratar de uma frase. No exemplo «Há livros raros», assumindo que «livros raros» seja sujeito, o pronome pessoal nominativo que lhe pode ser associado é eles. Fazendo o teste, teremos: «*Eles há /*há eles». Por outro lado, no caso de pretendermos saber se uma dada expressão é complemento directo, poderemos, igualmente, substituir essa expressão pelo pronome pessoal acusativo adequado, que na expressão em apreço será os: «Há-os».

Com base neste teste, «livros raros» não é sujeito, é, sim, complemento directo, pelo que Cunha e Cintra estão certos, pelo menos face a este exemplo concreto. Se é sempre assim, ou se há excepções, terá de ser feita uma análise individual de cada frase com que nos deparemos.

Note-se, ainda, que é possível pronominalizar apenas livros: «Há-os raros». Se assim interpretarmos a frase, então raros será predicativo do complemento directo. Saliento que ambas as interpretações são possíveis.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa