A pronúncia e a grafia - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A pronúncia e a grafia

Levando em conta as explicações dadas por Helena Figueira:

«Ao contrário da ortografia, que é regulada por textos legais (ver o texto do Acordo Ortográfico), não há critérios rigorosos de correcção linguística no que diz respeito à pronúncia, e, na maioria dos casos em que os falantes têm dúvidas quanto à pronúncia das palavras, não se trata de erros, mas de variações de pronúncia (...)»

É legítimo isso aplicar-se às chamadas consoantes mudas? O novo acordo preconiza Egito como ortográfica e foneticamente correcto; porém, eu e várias pessoas que conheço (zona centro-norte) pronunciamos esse país com o p. Trata-se então de uma variação de pronúncia regional aceitável? E, sendo aceitável, devemos continuar a escrever Egipto, ou a nossa ortografia tem de seguir a fonética culta, de Lisboa (Egito)?

Não havendo critérios rigorosos, significa isso que não podemos dizer a alguém, em rigor, que pronuncie escrita como [escripta] que está incorrecto?

Fernando Verde Estudante Porto, Portugal 6K

Trata-se de um caso de dupla grafia, que decorre da aceitação de duas pronúncias para a mesma palavra: Egito e Egipto.

Quanto à pergunta final da consulente, "escripta" é uma forma incorreta, porque, embora possa ser uma variante individual, não é legitimada pelo comportamento linguístico de nenhum grupo, seja ele definido pela geografia (dialeto), pelos contrastes sociais (socioleto) ou pelas diferentes modalidades de expressão (registos, oralidade, escrita). Porque não há registo de "escripta" como forma que ocorra sistematicamente na expressão de um grupo de indivíduos, o mais que se pode dizer é que "escripta" é uma variante idioletal, se esta forma ocorrer de forma consistente no discurso de um indivíduo. Se nem isso acontecer, considerar-se-á que, do ponto de vista descritivo, se trata de uma forma fortuita, resultante de um lapso ou de um ato gratuito. Na perspetiva da norma, "escripta" será sem dúvida um erro, porque está excluída do elenco de formas que as comunidades de falantes de língua portuguesa definem, explícita ou implicitamente, como legítimas.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma