A pontuação no discurso direto (2) - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
A pontuação no discurso direto (2)

O meu grande agradecimento ao ciberduvidas. E felicitações pelo contributo para a Língua Portuguesa.

A resposta foi dada em várias entradas. Parece consensual esta forma:

«— Amanhã vai chover — disse o Manuel. — O céu está muito escuro. Neste exemplo, o primeiro travessão serve para introduzir a fala da personagem (3), e o segundo, para separar o que é fala da personagem do que é discurso do narrador. O primeiro ponto justifica-se porque termina o período (2). O terceiro travessão é de novo sinal de introdução do discurso directo e termina com a pontuação respetiva. Como o locutor é o mesmo, não há mudança de linha.»

Encontro uma forma diferente de pontuação e de uso da maiúscula na frase intercalada num autor e peço esclarecimento sobre a sua correção e aceitação:

A «– Nem desses plenários tive conhecimento. – Garanti. – Nada tenho a ver com isso.»

B «– Simplifiquei ao máximo e menos do que isto é impossível. – Explicou. – Mas eles não querem estudar e não vão concordar com nada.»

C «– Como não há?! – E eu próprio fui procurar aquele produto insubstituível. – Ora vê! Está aqui!...» 

Muito obrigada.

Maria Lopes Revisora Coimbra, Portugal 162

Na literatura, foi criado o discurso indireto livre, para que se tenha a liberdade de misturar discurso direto e indireto sem necessidade de travessão ou aspas. Ora, a ausência destes sinais gráficos de pontuação é o sinal de que o autor está a usar o discurso indireto livre, para que o leitor esteja atento à distinção. Muitas vezes, porém, a liberdade é tal, que o leitor fica confundido. Temos exemplos típicos na literatura dos nossos dias, com autores que me dispenso de citar porque não sou crítico literário e todos os viandantes da escrita me merecem respeito.

No caso em apreço, deseja-se distinguir o discurso direto do indireto, dado que foi usado o travessão. Nestes casos, põe-se o problema de haver necessidade de se cumprirem as regras. Caso contrário, a confusão pode ainda ser maior.

Analisemos cada uma das frases em apreço:

A «– Nem desses plenários tive conhecimento. – Garanti. – Nada tenho a ver com isso.»

O primeiro travessão introduz o discurso direto na narrativa, o segundo passa à narrativa e o terceiro volta ao direto.

O que um dos meus mestres na língua me ensinou é que, se na escrita dum diário pode não haver grande preocupação com as interpretações erradas, normalmente esta preocupação é fundamental para que a mensagem seja exatamente a que desejamos transmitir.

Na pontuação usada na frase A, o que é que a personagem garantiu? O texto antecedente ou o sequente? Era o antecedente? Então seria preciso fazer a ligação:

«– Nem desses plenários tive conhecimento –, garanti. – Nada tenho a ver com isso.»

Mas é o sequente? Então, seria:

«– Nem desses plenários tive conhecimento. – Garanti: – Nada tenho a ver com isso.»

Garantiu tudo? Seria preciso outro arranjo para que a ideia ficasse clara.

Na frase B o problema é semelhante.

C «– Como não há?! – E eu próprio fui procurar aquele produto insubstituível. – Ora vê! Está aqui!...»

A mensagem está clara na separação. Não há outro parágrafo, o interlocutor é o mesmo. O leitor depreende que a última fala é o resultado da primeira ação da personagem na procura.

Devem-se evitar os declarativos que se subentendem, mas pode haver nessa escolha também já discurso livre.

Canonicamente, para separar as duas ações distintas: procura e apresentação do produto, seria:

C «– Como não há?! – E eu próprio fui procurar aquele produto insubstituível. Mostrei: – Ora vê! Está aqui!...»

 

Muito obrigado pelo seu reconhecimento sobre o nosso contributo em defesa da nossa língua. Gracioso, empenhado, nem sempre fácil...

Ao seu dispor,

D´Silvas Filho
Áreas Linguísticas: Ortografia/Pontuação Campos Linguísticos: Pontuação