A palavra flor no português antigo - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A palavra flor no português antigo

Fiquei sabendo que no português antigo a palavra flor era pronunciada e grafada como "chor", visto que o grupo "fl-" do latim transformou-se, em galego-português, em "ch". Gostaria de obter mais informações sobre a ocorrência da palavra "chor".

Victor Villon Pós-graduando em História pela PUC-Rio Rio de Janeiro, Brasil 6K

É verdade que em galego-português (ou em galego antigo, ou em português antigo, para o caso é o mesmo), as sequências do latim vulgar CL-, FL-, PL- passaram a ser pronunciadas como [tʃ], som africado surdo que ocorre, por exemplo, como consoante inicial da palavra inglesa chair. Por exemplo, CLAVE- passou a chave, AFFLARE-, a achar, e PLUMBU-, a chumbo.

Tendo em conta esta mudança, verificamos que, em teoria e por via popular, o latim FLORE- teria resultado na forma chor, e assim é, porque se encontra atestada, segundo José Joaquim Nunes, no Compêndio de Gramática Histórica Portuguesa (Lisboa, Clássica Editora, pág. 96):

«A existência na antiga língua [de chor] é atestada, não só pelo provérbio referido à plantação da oliveira,

 

no tempo da chôr
é cortar e pôr

mas ainda pelo seu derivado chorão

Contudo, a par de chor, encontramos formas em que o fenómeno fonético em causa não ocorreu: na Idade Média, existiam as formas fror e frol e uma outra, mais próxima do étimo latino, que acabou por se impor no português — flor.

Porque é que isto aconteceu? Os processos de mudança fonética podem ter excepções, porque a sua ocorrência se faz por difusão lexical. Isto quer dizer que tudo depende da história da palavra: se houver uma situação que impeça a produção do fenómeno fonético, então é possível que a palavra não seja abrangida por ele.

A história de flor é, a este respeito, curiosa, porque mostra que se usaram em variação quatro formas da mesma unidade lexical; não se percebe bem porque prevaleceu a mais conservadora, mas é provável que a presença do latim na Igreja e na administração a tenha favorecido. José Joaquim Nunes (op. cit., pág. 230, n. 2) explica simplesmente que flor «veio a suplantar, decerto introduzida na língua por influência erudita, a antiga chor».

Observe-se que basta ler com atenção as Cantigas de Santa Maria, do rei Afonso X de Castela (século XIII), para verificar que a Virgem Maria aparece muitas vezes referida como «flor das flores» ou, empregando a forma mais evoluída, «fror das frores». Contudo, a expressão nunca ocorre como «chor das chores». Tampouco a Base de Dados da Lírica Profana Galego-Portuguesa revela  ocorrências da variante chor ou do seu plural, chores, o que me parece elucidativo da sua raridade já nos alvores do português e do galego escritos.

 

Carlos Rocha
Tema: Origem de palavras Classe de Palavras: substantivo
Campos Linguísticos: Pronúncia; Fenómenos fonéticos