Maria Regina Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
 
Textos publicados pela autora

«O meu sentimento, como é natural, é de um grande reconhecimento e de agradecimento à decisão que o senhor presidente da República tomou em querer-me agraciar.»1

Nesta frase há dois aspectos a considerar: primeiro, não se agradece a uma decisão, agradece-se a alguém; segundo, o pronome se deverá estar ligado ao verbo ao qual diz respeito (agraciar), e não ao auxiliar (querer).

Pergunta:

Não obstante o que aqui li de recomendação sobre o plural de cadáver, continuo o ouvir grande parte dos jornalistas da TV e da rádio portuguesas pronunciando-o com e fechado. Afinal, como é: "cadávres" (portanto, com e fechado) ou "cadávéres" (portanto, com e aberto)?

Resposta:

Deverá pronunciar-se com a vogal e aberta, como no singular. Não há nenhuma regra que determine que a vogal e mude de timbre quando o substantivo flexiona. A metafonia — mudança de timbre de uma vogal por influência de uma vogal posterior — está estudada nas gramáticas, nomeadamente a propósito, por exemplo, da abertura da vogal o do plural de algumas palavras como fogo ou povo, e não contempla a vogal e no plural dessa palavra.

O caso de cadáver (/cadáveres/) é idêntico ao de repórter (/repórteres/), éter (/éteres/), cárter (/cárteres/) ou líder (/lídères)/. Pode, ainda, fazer-se a analogia com Óscar (/Óscares/), dólar (/dólares/) ou díspar (/díspares/), palavras que mantêm a vogal a aberta no plural.

«É evidente que Portugal tem que apostar cada vez mais num modelo assente em trabalho cada vez mais qualificado e, portanto, melhor remunerado.»1

Duas incorecções nesta frase:

Em primeiro lugar, embora esteja generalizado o uso de «ter que» em vez de «ter de», é bom lembrar que «ter de» é a locução adequada quando se pretende referir um dever, uma obrigação: «Portugal tem de apostar cada vez mais num modelo assente em trabalho qualificado.»

Pergunta:

 Qual a origem da expressão beirã «dar ao facho», que significa «coscuvilhar» ou «bisbilhotar»?

Resposta:

Um facho era uma matéria inflamável que se acendia de noite para dar rebate de que se aproximava o inimigo ou para dar qualquer sinal, para servir de guia, etc. Facho tem como sinónimos archote, brandão, lanterna, luzeiro, tição aceso, chama, luz.

Deste significado material, construíram-se outros, e facho também passou a significar tudo o que esclarece ou serve de luz intelectual, de norte, de guia e ainda tudo o que serve de elemento para suscitar, alimentar ou desenvolver paixões (discussões, tomadas de posição). Nesta acepção surge, por exemplo, o termo «brandir o facho da discórdia». É que um facho, além de alumiar, também serve para pegar fogo a algo, para incendiar, materialmente ou não. É o que se pode ver nesta frase da obra No Bom Jesus do Monte, de Camilo Castelo Branco: «Se lá vais, atiras com um facho infernal ao seio daquela família.»

Da dupla acepção de facho como «chama, luz (visível na escuridão)» e como «algo que suscita ou alimenta paixões», surge o regionalismo de Trás-os-Montes facho com o significado de «mulher malcomportada». Trata-se de uma mulher que, como um facho, não passa despercebida, dá nas vistas e, também, uma mulher de quem se fala, que suscita discussões entre as pessoas, que dá azo a falatório, a coscuvilhices, a bisbilhotices.

No Algarve, facho também é usado com o significado de «má maneira, mau preparo, má apresentação no vestir» (por exemplo: «Não tens vergonha de vir para a rua nesse facho?»). Essa maneira de vestir dará nas vistas (como um facho) e provocará, naturalmente, falatório entre as pessoas.

Chegamos, assim, à expressão «dar ao facho», que significará «bisbilhotar, coscuvilhar para pôr alguém com a visibilidade de u...

Pergunta:

Ao ver o programa Um contra Todos de 22 de Janeiro do corrente ano, a pergunta de casa (passatempo), relacionada com o tema Personalidades, era quem é o irmão do também pintor de Rafael Bordalo Pinheiro. Nas possibilidades de resposta, a certa era «Colombano Bordalo Pinheiro» – sim, Colombano com o na segunda sílaba.

A questão é a seguinte: é com o ou com u (Columbano)? É que na Internet aparece das duas maneiras, e a curiosidade é que trabalho na Av. Columbano Bordalo Pinheiro em Lisboa e sempre escrevi com u. Em que ficamos? Acho que seria interessante para o vosso programa.

Obrigado pela atenção,

Resposta:

Columbano, nome próprio de Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), escreve-se com u na antepenúltima sílaba. Assim o registam, por exemplo, três obras de referência: o Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa.

Nesta última obra, de José Pedro Machado, explica-se que Columbano é um nome próprio derivado de columbus, palavra latina que significa «pombo», ou antes de columba, que significa «pomba», em alusão ao Espírito Santo, e que existiram dois santos com este nome, ambos falecidos no século VII.