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Manuel Rui
Manuel Rui
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De seu nome completo, nasceu no Huambo (1941), Angola. Escritor, professor de literatura, jurista, cronista e guionista de cinema, tem várias obras publicadas no domínio da poesia e da prosa. Traduzido já para espanhol, francês, inglês, italiano, russo, romeno, checo, finlandês, árabe e hebraico, é autor, entre outros, de Quem me dera ser onda (1982), Crónica de um Mujimbo (1989), 1 Morto & Vivos (1993), Da Palma da Mão (1998) e Rioseco (1999).

 
Textos publicados pelo autor
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Extrato inicial do livro A Bicha e a Fila, uma paródia à volta das diferenças culturais entre Brasil, Angola e Portugal – a começar nas palavras do título do romance escrito "a quatro mãos".


Ler em voz alta é declinar a vida inteira das
Palavras escritas
Agora mais bonitas do que antes
Pois foram libertadas consoantes
Aquelas que estavam escritas mas não se liam
coitadas
Ficavam mudas e não se ouviam porque tristes e
amuadas.
Abaixo o protecionismo que agora perdeu um cê
E também a reação
O

1

De palavras novas também se faz país

neste país tão feito de poemas

que a produção e tudo a semear

terá de ser cantado noutro ciclo.


2

É fértil este tempo de palavras

em busca do poema

que foge na curva das palavras

usadamente soltas e antigas

distantes das verdades dos rios

do quente necessário das brasas

do latejar silencioso das sementes

dentro da terra

quando chove.


3

Proponho um verso novo

para as laranjas (por exemplo) matinais

e os namorados

com que havemos de encher todos os dias

os mercados.


4

Ou a palavra é o princípio e negação da eternidade ou o eterno só terá começado - sem ter sido concluído - com a palavra. A cosmogonia dos gestos, dos sons, dos símbolos - da palavra, como elemento da criatividade mais inicial, a palavra como princípio de se conhecer a existência. Como princípio de todos os princípios e descoberta da vida pelo conhecimento da morte.

Falar é sermos nós com os outros para se perceber o singular e entender-se também a si. (...)