O Semba da Nova Ortografia - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O Semba da Nova Ortografia


Ler em voz alta é declinar a vida inteira das
Palavras escritas
Agora mais bonitas do que antes
Pois foram libertadas consoantes
Aquelas que estavam escritas mas não se liam
coitadas
Ficavam mudas e não se ouviam porque tristes e
amuadas.
Abaixo o protecionismo que agora perdeu um cê
E também a reação
O abstracionismo é uma maneira de ver
Mas o acionamento do voto é um dever
Muito mais fácil de exercer com um cê a menos
Porém quando articulado
Vai de regra com o cê
Na palavra faccioso
Reparem que o cê tem trabalho
Como em friccionar
Diferente de antigamente
Em que o cê de refe ctir
Tinha lugar sem servir
Zarpou e eu em vez de refletir
Deu-me vontade de rir
De ver o cê a bazar!


Era assim antes actual o cê desaproveitado
Agora escreve-se atual e atualmente
Tal e qual como se lê!
Que lindo e tão simples
Como confecionar papagaios de papel
Também sem mais aquele cê que não ia voar
Só por estar
Sem ser articulado
E sendo assim detetado
Deixou de ser ativado
Mas se o cê estiver a trabalhar num texto ficcional
Continua muito bem ortografado
E o cê a cantar que

Agora
Até que enfim
Vou-me embora
Da mudez
De emprego desempregado
Só fico para outras palavras
Onde seja articulado.
Não fazia nada em atual
Mas fazia e continua a fazer
Na palavra ficcional.

Mas tomem muita atenção
Que já não se escreve acção
Um cê também foi embora
Nesta nova projeção que também perdeu o cê
Como acontece em ação
E na nossa ortografia
Vamos embora para a frente
Aliviando as palavras de tanto cê indolente
E sem qualquer distração
Um pedaço é uma fração
Contra a lei é infração
Esta nova ortografia é uma boa
Para no CAN o mangolé-mangolá
Só ter uma direção
FORÇA ANGOLA!
FORÇA PALANCA-NEGRA
NOSSA ÓTIMA SELEÇÃO!
 
(...)

Fonte
Primeiras estrofes de O Semba da Nova Ortografia, edição da União dos Escritores Angolanos, Luanda, 2009.

Sobre o autor

De seu nome completo, nasceu no Huambo (1941), Angola. Escritor, professor de literatura, jurista, cronista e guionista de cinema, tem várias obras publicadas no domínio da poesia e da prosa. Traduzido já para espanhol, francês, inglês, italiano, russo, romeno, checo, finlandês, árabe e hebraico, é autor, entre outros, de Quem me dera ser onda (1982), Crónica de um Mujimbo (1989), 1 Morto & Vivos (1993), Da Palma da Mão (1998) e Rioseco (1999).